Café forte

Você pode ler este post ao som de Stay or Leave, Dave Matthews

A gente trocava nossos drinks de gin a cada teoria maluca ou realidade crua do mundo adulto. O bar estava claramente fechando e eu me sentia paralisada enquanto meu riso ecoava entre portas fechadas e cadeiras em cima das mesas. Estávamos ali, frente a frente, e parecia o primeiro encontro. Tínhamos várias histórias dentro de uma e eu sabia que aquela poderia acabar a qualquer momento. Alex* me ensinava a viver os instantes como ninguém — se não podemos prever o futuro, com ele eu nunca tinha a mínima ideia.

Eu nunca gostei de café forte. Sendo sincera, nem fraco demais, o que é estranho para uma pessoa que navega entre extremos. Entre doce e salgado, prefiro doce. Calor a frio e por aí vai. Ou é ou não é foi a frase que se colidia entre a parede e ele quando achei que aquela seria a última vez que fôssemos nos falar. “Assustei o cara” era um pensamento que corroía a cabeça conforme o coração batia forte na adrenalina de, finalmente, esclarecer o que eu esperava dele. No fim, quem se assustou fui eu.

Nosso ritmo seguia como o café amargo sem açúcar do qual eu não gostava nem um pouco. Ele se retirava do espaço, esquecendo um pouco de si em cada memória que fizera. Eu lutava contra o arrepio na espinha cada vez que me lembrava da sua respiração profunda no meio da noite, seu corpo quente entrelaçado no meu. Era uma batalha diária com cada palavra que tirava outro vagão do meu trem descarrilhado dos trilhos.

Ele me ofereceu café e eu disse sim, me sentindo um tanto culpada de ele ter que fazer algo por mim. “Acho que ficou forte”. Nunca gostei de café forte, nem fraco demais, o que era estranho para uma pessoa que navega entre extremos, mas fazia total sentido para quem vivia cada dia ao lado de alguém como se fosse o último. Coloquei açúcar no que não parecia ser o café que eu gostaria e fechei os olhos. O primeiro gole resumiu o que eu mais temia: naquele domingo à tarde, que para a gente ainda era uma manhã despretensiosa, eu tomei o melhor café da minha vida.

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.

Crédito da foto: Madison Inouye

Bonitinho, vegano e ordinário

Você pode ler este post ao som de Wasted time, Skid Row

“Desculpa, mas eu não trabalho para o pornhub“: tá aí uma frase que eu nunca achei que diria na vida.

Uma coisa muito engraçada sobre apps de relacionamento é perceber que, mesmo dentro da nossa casa, enrolada num cobertor e segurando uma xícara de café, estamos submetidos a conhecer as pessoas muito peculiares.

Se misturarmos álcool e tédio, é possível que escolheremos as nossas melhores fotos, criaremos a descrição de dar inveja em qualquer marketeiro e nos juntaremos às milhares de pessoas em busca de um corpo quente nesse frio nos tinders da vida. Julgar essas pessoas não é uma opção, pois todo mundo vai ter sua vez um dia.

Travis* era um cara bonito meio loiro, meio ruivo que tinha uma banda e muitas fotos legais. Enquanto ouvia rock pesadão, cozinhava seu próprio macarrão de abobrinha. Sim, um rockeiro, músico, bonito e vegano era tudo o que eu precisava naquele momento.

Na descrição, ele dizia que procurava companhia para ver filmes de terror que fossem protegê-lo – a desculpa mais safada e batida que alguém poderia utilizar como artimanha de sedução. Ele tinha me ganhado ali, apesar do clichê. Demos match e, mal sabia eu, que ele seria com o capeta.

Meia hora conversando e eu recebo uma localização por mensagem: “estou indo tomar banho e deixei a porta aberta”. Gente. Isso era para mim? O que ele quis dizer? Que era para eu ir para a casa dele sabendo que a taxa de feminicídio aumentou 76% no primeiro trimestre deste ano, no Brasil? Estava eu muito louca? Essas perguntas nunca foram respondidas.

Eu fui desconversando, já sabendo que o que ele queria era sexo casual (e tudo bem). A maioria das pessoas que já conheci nesses aplicativos quer isso mesmo e são muito claras com seus objetivos. O que começou a ser curioso foram os esquivos de todos os convites para bares, cafés e qualquer outro local público da cidade.

“Me manda uma foto sua?” Foto de quê? Uma selfie? Uma foto com a Gertrudes? Uma foto minha trabalhando? Lendo um livro? Ah, tá! Acho que ele quer um nude. E me conhecer? Será que ele queria?

Somando minha paciência e a esperança de tornar aquela experiência em algo produtivo como um escudo e esse texto que vos escrevo, deixei a situação ir ainda mais longe. Foram muitos pedidos de fotos e de visitas no meio da noite, sem qualquer pergunta sobre quem eu era. Talvez eu fosse uma psicopata também e ele nem sequer deve ter parado para pensar nisso.

Mesmo com todas as expectativas alinhadas, ele não parecia entender meu ponto, mas eu entendi o dele perfeitamente: temos, agora, uma outra classe de interesses em aplicativos de relacionamento. Não é sair com a pessoa e transar no primeiro encontro, nem mesmo ir a mais de um encontro e transar depois. É não sair e ter um “serviço” que vai além dos sites pornôs, como a prostituição gratuita a domicílio.

Com o Travis, eu descobri que não somos mais pessoas de carne e osso ou mulheres dignas de uma conversa (e nem me venha com esse papo de que a gente busca por relacionamento sério, pois não é o caso), somos gado. Estamos disponíveis e parecemos não ter relações bem estabelecidos na vida real para não precisarmos sair no meio da noite e satisfazer o desejo sexual de um desconhecido. Aprendi que, mesmo que a gente quisesse sair no meio da noite e entrar na casa de um estranho sem o menor compromisso, estaríamos correndo o risco de perder a própria vida. Aprendi que não valemos um copo americano de cerveja. Travis fez a conta de quanto ele gastaria em um date sem ter a certeza de que se daria bem no final.

O medo, o espanto e a reflexão me fizeram crer que dignidade é uma questão que vai muito além de se resguardar física e emocionalmente, mas entender que ainda precisamos do mínimo de profundidade até para relacionamentos superficiais. E, infelizmente, as pessoas se assustam com isso. Dizer que tem interesse, compartilhar um litrão de cerveja barata e se propor a conhecer um pouco do outro não quer dizer que não queremos o mesmo prazer descompromissado. No fim, a gente só quer mesmo se certificar de que a energia no entorno não nos colocará em alguma posição desconfortável e traumática, afinal, da mistura do álcool com o tédio sai a carência do corpo quente no frio.

E ele poderia ter sido o seu, Travis.

*Nome fictício para preservar a personagem (mesmo que ela não mereça).

Crédito da imagem: StockSnap–894430