Feliz dia!

Você pode ler este post ao som de Ruins, James Morrison

Relógio desperta às sete horas da manhã e o frio agita a espinha. Estou com febre e minha garganta dói. Alguns e-mails para responder, mensagens perdidas no celular, o cheiro do café invadindo o quarto. A folha do calendário aponta doze de junho e eu estava esquecendo de algo.

Pego o celular o confirmo se os cupcakes vão ficar prontos a tempo. Como eu sabia que ele gostava: cenoura com cobertura de chocolate e corações de pasta americana. O livro ilustrado que escrevi com as dez coisas que eu amava no Gustavo* já estava finalizado. Será que eu escrevo uma carta?

Pego o termômetro e me assusto quando vejo outro número: trinta e nove é muita coisa. Às nove, eu tenho uma reunião com outras milhões de datas mais importantes que doze de junho. O que aconteceu comigo? Começo a trabalhar, agradeço que estou em casa e que tem dipirona. Sinto calor, mas sigo respondendo e-mails.

Brigamos o caminho inteiro até em casa, tudo era motivo. Havia complementado a camiseta dos Simpsons que ele nunca usaria com um porta-retrato nosso (sabia que era um clichê, mas nessa ocasião o que não era?). Ele amava os Simpsons, mas acho que odiou a camiseta — não usava nem para fazer uma média. Tinha chocolates, também, e o meu presente era sempre algo que ele comprava de uma última hora sob a desculpa de que eu era uma pessoa difícil de se presentear. Eu tinha tudo, segundo ele.

A reunião acabou e minha cabeça latejava. Decidi ir ao médico e quando fui tirar o carro da garagem, me deparo com um buraco de frente ao meu portão. Vários homens trabalhando. Vocês me dão licença? Um deles saiu de dentro do buraco e preencheu o espaço com a terra. Saí e meu date era com o trânsito na Marginal Pinheiros. Eu só queria deitar um pouco, mas segui caminho.

Três meses antes, nós terminamos pela milésima vez. Agora é definitivo. Passa uma semana, duas e lá estávamos nós, trocando juras e fazendo promessas que não cumpriríamos. O dia doze, mais uma vez, caía no meio da semana. Eu avisei que estava subindo para o apartamento e ele me recebeu de porta aberta, segurando uma rosa e um chocolate, meu olhar marejando. Talvez estivéssemos abrindo espaços ou tapando os buracos que a gente mesmo tinha se enfiado. Vocês me dão licença?, a razão perguntava.

Voltei para casa com três caixas de remédio, uma lata de brigadeiro pronto e pilhas de trabalho me esperando. O sol estala lá fora, mas ainda sinto o frio perfurando a pele. Os casais preenchem minha timeline com fotos e textos cheios de amor. Lendo um a um e distribuindo likes, eu me sinto em paz. A mesma paz de quem amou construindo castelos e saindo de escombros. Posso dizer que não sinto raiva desse sentimento alheio que está no ar, tampouco tenho medo dele. Eu saí, mas deixei a porta aberta.

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.

Crédito da foto: Flora Westbrook