Café forte

Você pode ler este post ao som de Stay or Leave, Dave Matthews

A gente trocava nossos drinks de gin a cada teoria maluca ou realidade crua do mundo adulto. O bar estava claramente fechando e eu me sentia paralisada enquanto meu riso ecoava entre portas fechadas e cadeiras em cima das mesas. Estávamos ali, frente a frente, e parecia o primeiro encontro. Tínhamos várias histórias dentro de uma e eu sabia que aquela poderia acabar a qualquer momento. Alex me ensinava a viver os instantes como ninguém — se não podemos prever o futuro, com ele eu nunca tinha a mínima ideia.

Eu nunca gostei de café forte. Sendo sincera, nem fraco demais, o que é estranho para uma pessoa que navega entre extremos. Entre doce e salgado, prefiro doce. Calor a frio e por aí vai. Ou é ou não é foi a frase que se colidia entre a parede e ele quando achei que aquela seria a última vez que fôssemos nos falar. “Assustei o cara” era um pensamento que corroía a cabeça conforme o coração batia forte na adrenalina de, finalmente, esclarecer o que eu esperava dele. No fim, quem se assustou fui eu.

Nosso ritmo seguia como o café amargo sem açúcar do qual eu não gostava nem um pouco. Ele se retirava do espaço, esquecendo um pouco de si em cada memória que fizera. Eu lutava contra o arrepio na espinha cada vez que me lembrava da sua respiração profunda no meio da noite, seu corpo quente entrelaçado no meu. Era uma batalha diária com cada palavra que tirava outro vagão do meu trem descarrilhado dos trilhos.

Ele me ofereceu café e eu disse sim, me sentindo um tanto culpada de ele ter que fazer algo por mim. “Acho que ficou forte”. Nunca gostei de café forte, nem fraco demais, o que era estranho para uma pessoa que navega entre extremos, mas fazia total sentido para quem vivia cada dia ao lado de alguém como se fosse o último. Coloquei açúcar no que não parecia ser o café que eu gostaria e fechei os olhos. O primeiro gole resumiu o que eu mais temia: naquele domingo à tarde, que para a gente ainda era uma manhã despretensiosa, eu tomei o melhor café da minha vida.

Feliz dia!

Você pode ler este post ao som de Ruins, James Morrison

Relógio desperta às sete horas da manhã e o frio agita a espinha. Estou com febre e minha garganta dói. Alguns e-mails para responder, mensagens perdidas no celular, o cheiro do café invadindo o quarto. A folha do calendário aponta doze de junho e eu estava esquecendo de algo.

Pego o celular o confirmo se os cupcakes vão ficar prontos a tempo. Como eu sabia que ele gostava: cenoura com cobertura de chocolate e corações de pasta americana. O livro ilustrado que escrevi com as dez coisas que eu amava no Gustavo* já estava finalizado. Será que eu escrevo uma carta?

Pego o termômetro e me assusto quando vejo outro número: trinta e nove é muita coisa. Às nove, eu tenho uma reunião com outras milhões de datas mais importantes que doze de junho. O que aconteceu comigo? Começo a trabalhar, agradeço que estou em casa e que tem dipirona. Sinto calor, mas sigo respondendo e-mails.

Brigamos o caminho inteiro até em casa, tudo era motivo. Havia complementado a camiseta dos Simpsons que ele nunca usaria com um porta-retrato nosso (sabia que era um clichê, mas nessa ocasião o que não era?). Ele amava os Simpsons, mas acho que odiou a camiseta — não usava nem para fazer uma média. Tinha chocolates, também, e o meu presente era sempre algo que ele comprava de uma última hora sob a desculpa de que eu era uma pessoa difícil de se presentear. Eu tinha tudo, segundo ele.

A reunião acabou e minha cabeça latejava. Decidi ir ao médico e quando fui tirar o carro da garagem, me deparo com um buraco de frente ao meu portão. Vários homens trabalhando. Vocês me dão licença? Um deles saiu de dentro do buraco e preencheu o espaço com a terra. Saí e meu date era com o trânsito na Marginal Pinheiros. Eu só queria deitar um pouco, mas segui caminho.

Três meses antes, nós terminamos pela milésima vez. Agora é definitivo. Passa uma semana, duas e lá estávamos nós, trocando juras e fazendo promessas que não cumpriríamos. O dia doze, mais uma vez, caía no meio da semana. Eu avisei que estava subindo para o apartamento e ele me recebeu de porta aberta, segurando uma rosa e um chocolate, meu olhar marejando. Talvez estivéssemos abrindo espaços ou tapando os buracos que a gente mesmo tinha se enfiado. Vocês me dão licença?, a razão perguntava.

Voltei para casa com três caixas de remédio, uma lata de brigadeiro pronto e pilhas de trabalho me esperando. O sol estala lá fora, mas ainda sinto o frio perfurando a pele. Os casais preenchem minha timeline com fotos e textos cheios de amor. Lendo um a um e distribuindo likes, eu me sinto em paz. A mesma paz de quem amou construindo castelos e saindo de escombros. Posso dizer que não sinto raiva desse sentimento alheio que está no ar, tampouco tenho medo dele. Eu saí, mas deixei a porta aberta.

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.

Crédito da foto: flicker/johanna