Quem diria

Você pode ler este post ao som de Quem diria, Zimbra feat Dinho Ouro Preto

Enquanto rolava o feed do Instagram, ouvia os barulhinhos do gás da água tônica em contato com o limão e a minha solidão. Eu sabia que minha mãe e a cachorra de estimação estavam logo ali, no andar de cima da casa. Sabia, também, que a distância entre nós era bem maior que qualquer ser humano pudesse medir.

Eu me sentia sozinha por dentro. Como se meus pensamentos, dores e angústias fossem companhias passageiras, caso eu não conseguisse lidar com elas. E eu, que sempre quis fugir e preencher todo e qualquer vazio com existências alheias e pessoas cheias de boas intenções, quis abraçá-las como minhas de novo. Quis o silêncio do lado de fora, mas também a gritaria de me apropriar de mim mesma.

A playlist ia rolando e me trazendo as melhores e as piores memórias possíveis. A parte interessante e assustadora de querer se encontrar em si mesmo é justamente essa: ter momentos de euforia como se o mundo coubesse na palma da sua mão e, ao mesmo tempo, se sentir tão pequeno e querer caber na mão de uma outra pessoa. Se aproximar do que ela sente e guardar tudo o que tem. Olhar mais para fora que para dentro. Olhar para lugar nenhum

Os três cubos de gelo que encontrei na geladeira haviam derretido e o suor do copo gelado feito uma poça no chão. Lavei a louça da pipoca, juntei os livros do francês, coloquei um episódio de Grey’s Anatomy pra rodar. Chorei por uma história que nem sequer era minha, quis chorar pelo mundo. Nunca vou entender qual o tabu que as pessoas colocam em chorar, pensei.

Tinha a insônia de alguém que dormira em um momento errado do dia. Tenho a cabeça no lugar de quem nunca soube o que pensar. Tenho a chance de renascer cada vez penso em sumir. Tenho a sorte de ainda poder amar a mim mesma antes de qualquer coisa. Tenho tempo de recuperar o tempo que quase escorreu pelos dedos, feito o gelo derretido do drink que foi metade para o ralo. Eu tenho tudo.

Quando eu me olho no espelho, vejo que tenho absolutamente tudo.

 

Crédito da imagem: flickr/gooseroxx

Bonitinho, vegano e ordinário

Você pode ler este post ao som Wasted time, Skid Row

“Desculpa, mas eu não trabalho para o pornhub“: tá aí uma frase que eu nunca achei que diria na vida.

Uma coisa muito engraçada sobre apps de relacionamento é perceber que, mesmo dentro da nossa casa, enrolada num cobertor e segurando uma xícara de café, estamos submetidos a conhecer as pessoas muito peculiares.

Se misturarmos álcool e tédio, é possível que escolheremos as nossas melhores fotos, criaremos a descrição mais criativa que qualquer propaganda de marketing e nos juntaremos às milhares de pessoas em busca de um corpo quente nesse frio nos tinders da vida. Julgar essas pessoas não é uma opção, pois todo mundo vai ter sua vez um dia.

Travis* era um cara bonito meio loiro, meio ruivo que tinha uma banda e muitas fotos legais. Enquanto ouvia rock pesadão, cozinhava seu próprio macarrão de abobrinha. Sim, um rockeiro, músico, bonito e vegano era tudo o que eu precisava naquele momento.

Na descrição, ele dizia que procurava companhia para ver filmes de terror que fossem protegê-lo – a desculpa mais safada e batida que alguém poderia utilizar como artimanha de sedução. Ele tinha me ganhado ali, apesar do clichê. Demos match e, mal sabia eu, que ele seria com o capeta.

Meia hora conversando e eu recebo uma localização por mensagem: “estou indo tomar banho e deixei a porta aberta”. Gente. Isso era para mim? O que ele quis dizer? Que era para eu ir para a casa dele sabendo que a taxa de feminicídio aumentou 76% no primeiro trimestre deste ano, no Brasil? Estava eu muito louca? Essas perguntas nunca foram respondidas.

Eu fui desconversando, já sabendo que o que ele queria era sexo casual (e tudo bem). A maioria das pessoas que já conheci nesses aplicativos quer isso mesmo e são muito claras com seus objetivos. O que começou a ser curioso foram os esquivos de todos os convites para bares, cafés e qualquer outro local público da cidade.

“Me manda uma foto sua?” Foto de quê? Uma selfie? Uma foto com a Gertrudes? Uma foto minha trabalhando? Lendo um livro? Ah, tá! Acho que ele quer um nude. E me conhecer? Será que ele queria?

Somando minha paciência e a esperança de tornar aquela experiência em algo produtivo como um escudo e esse texto que vos escrevo, deixei a situação ir ainda mais longe. Foram muitos pedidos de fotos e de visitas no meio da noite, sem qualquer pergunta sobre quem eu era. Talvez eu fosse uma psicopata também e ele nem sequer deve ter parado para pensar nisso.

Mesmo com todas as expectativas alinhadas, ele não parecia entender meu ponto, mas eu entendi o dele perfeitamente: temos, agora, uma outra classe de interesses em aplicativos de relacionamento. Não é sair com a pessoa e transar no primeiro encontro, nem mesmo ir a mais de um encontro e transar depois. É não sair e ter um “serviço” que vai além dos sites pornôs, como a prostituição gratuita a domicílio.

Com o Travis, eu descobri que não somos mais pessoas de carne e osso ou mulheres dignas de uma conversa (e nem me venha com esse papo de que a gente busca por relacionamento sério, pois não é o caso), somos gado. Estamos disponíveis e parecemos não ter relações bem estabelecidos na vida real para não precisarmos sair no meio da noite e satisfazer o desejo sexual de um desconhecido. Aprendi que, mesmo que a gente quisesse sair no meio da noite e entrar na casa de um estranho sem o menor compromisso, estaríamos correndo o risco de perder a própria vida. Aprendi que não valemos um copo americano de cerveja. Travis fez a conta de quanto ele gastaria em um date sem ter a certeza de que se daria bem no final.

O medo, o espanto e a reflexão me fizeram crer que dignidade é uma questão que vai muito além de se resguardar física e emocionalmente, mas entender que ainda precisamos do mínimo de profundidade até para relacionamentos superficiais. E, infelizmente, as pessoas se assustam com isso. Dizer que tem interesse, compartilhar um litrão de cerveja barata e se propor a conhecer um pouco do outro não quer dizer que não queremos o mesmo prazer descompromissado. No fim, a gente só quer mesmo se certificar de que a energia no entorno não nos colocará em alguma posição desconfortável e traumática, afinal, da mistura do álcool com o tédio sai a carência do corpo quente no frio.

E ele poderia ter sido o seu, Travis.

*Nome fictício para preservar a personagem (mesmo que ela não mereça).

Crédito da imagem: flickr/Marian Alonso

De uma faixa a outra

Você pode ler este post ao som de Cry baby, Demi Lovato

Ano passado estava na Livraria Cultura procurando  por um livro infantil para minha sobrinha (de coração) que comemorava sete anos. Perambulando entre os corredores e estantes, dei de cara com uns CDs de POP em promoção.

Sei que a ideia de comprar CD pode parecer a coisa mais estúpida nos tempos modernos, ainda mais porque somos bombardeados de opções tecnológicas para ouvir nossas músicas da forma mais fácil possível. Como sou aquelas que revira o encarte do avesso, passa os olhos pelas letras e já se identifica com os versos mesmo antes de ouvir a própria música, vi o momento como parte da experiência musical.

Já que era o dia de comprar presentes, me dei o novo álbum da Demi Lovato (Tell me you love me Deluxe Edition) e fui ouvindo as duas músicas que conhecia no repeat até chegar ao buffet da festa infantil numa sexta-feira à tarde. Sim: eu conhecia duas faixas e fiquei navegando entre elas até essa semana, quase um ano depois.

Acontece que, nesse meio tempo, a vida tem tomado rumos que eu não esperava: desafios profissionais, grandes epifanias, laços cortados trouxeram a vontade de explorar as novas possibilidades que a mudança de itinerário me trouxera. Tudo isso tem me feito ver que a vida é uma história contada por amarras, como se compusessem um álbum que um dia estará em promoção. Então, hoje de manhã, ouvi todas as faixas do CD da Demi e percebi que estava cansada das batidas que haviam virado rotina: senti a necessidade de me entregar às melodias “novas”, me identificar com os outros enredos, entender o que ela estava contando como um todo.

Nós tendemos a insistir em hábitos e relacionamentos que entram em um ciclo sem nos levar a lugar algum. Decoramos a letra, atingimos a nota mais alta depois de tanta prática até que percebemos que, ao redor, há muito mais que dois singles que já tocavam na rádio muito antes de adquirirmos o famigerado CD. Nós insistimos na mesmice, mas não por falta de opção ou perspectiva, mas por medo de nos encantarmos e encararmos o novo. O desconhecido que causa o frio na barriga e a letra que sai errada dos lábios quando cantada pela primeira podem ser nosso pior embaraço, refletindo tudo ao redor.

Se pararmos para pensar, as duas músicas permanecerão ali, no meio das outras, mas talvez sejam elas que serão puladas por não caberem no nosso momento de total libertação. Elas continuarão sendo a parte do todo. Invadindo nossa cabeça para ficar nos momentos mais inoportunos. Serão lembradas com carinho quando alguém nos perguntar, num futuro distante, quais eram as músicas mais tocadas na nossa época ou por quem nosso coração batia mais forte.

E, então, da próxima vez que encararmos nosso rádio, olharemos também para dentro de nós. Quais serão os dois caminhos que nos farão ouvir nossa voz cantarolar todos os versos?

A parte será todo – e nos seremos, de uma vez por todas, inteiros.

 

Crédito da imagem: flickr

As estrelas de plástico

Você pode ler este post ao som de Beautiful, Christina Aguilera

Mesmo com a escada, eu não alcançava o teto — ou pelo menos tinha medo de esticar meu corpo até onde precisasse. Eu queria que estrelas brilhassem sobre mim enquanto dormia, mesmo que artificialmente. Era o máximo de luz próxima da realidade que conseguiria morando em uma cidade grande.

Talvez eu nunca tivesse imaginado a complexidade que aquele momento me traria. Não só pela necessidade de ter o sono assistido por elementos de material tão frágil, mas pelo que viria no processo.

Meu irmão, claramente mais alto que eu, alinhou, uma a uma, as estrelas de plástico rentes ao teto. Eram dezenas e, entre elas, duas fugiriam do formato padrão. Ao final da saga interestelar das quatro paredes, ele me perguntou qual era o problema das estrelas que ficaram de fora das minhas constelações. Estão com defeito, respondi.

Elas vão brilhar do mesmo jeito, ele foi direto.

Pensei em quantas vezes somos a estrela deixada de lado. Que, à luz do dia, teriam todas as marcas expostas e, no escuro (quando requisitadas), seriam exatamente o que alguém precisa. No fim, todos nós brilharíamos na simplicidade do nosso próprio sonho — ou do sonho de quem nos vê antes de adormecer.

Ora somos carne e osso, ora somos plástico. Que se molda conforme a vida acontece e ascende quando a hora chega. Acesas, no escuro de quem nos vê. Deformadas aos olhos de quem julga a intensidade pela forma — e não pela essência.

 

Crédito da imagem: flickr/Catherine Segurson