Keep calm e não crie expectativas

Você pode ler este post ao som de Your Love, The Outfield

Quando alguém fala para não criarmos expectativas, geralmente é tarde demais. Na maioria das vezes nem precisou de muito: foram os olhares se encontrando depois de um beijo que fez nossas pernas tremerem, mesmo quando firmes no chão. Foi a cabeça deitada no ombro no banco de trás, voltando para casa. Foi a mensagem dizendo que chegou bem em casa.

No consultório sem mobília da minha terapeuta, sentada em uma cadeira de plástico com uma vista ampla do bairro de Pinheiros, eu me comparei com um cachorro que ganha um carinho e sai rolando pelo chão como se a vida dele inteira fosse aquele momento de atenção. Será que eu sou tão carente assim? Quando foi que ficamos tão carentes assim? Ou será que a vida inteira fomos ensinados que gostar de alguém deveria tomar um tempo que garantisse uma certeza no final?

Não crie expectativas é a coisa mais cruel que alguém pode nos dizer quando acabamos de ficar com alguém e estamos curtindo a fase onde tudo acontece, basicamente, dentro da nossa cabeça. Queremos ver a pessoa de novo, repetir o beijo e as mãos entrelaçadas, mas imaginamos que ainda é cedo demais, como nos contaram. Quem não cria expectativas espera e deixa acontecer [naturalmente], ou seja: entrega a decisão na mão do outro que ora não sente o mesmo ora também está no aguardo. Também tem aquela pessoa não criante de expectativas que vai lá, faz acontecer e não deixa a própria mente levá-lo a lugares que ele talvez nunca chegue.

Fato é que não podemos ditar o que a gente sente, mesmo entendendo que relações devem ser baseadas em construção e conhecimento de quem está do nosso lado (sem essa de criar personagens apaixonáveis e esperar que o outro interprete esse papel para nos fazer feliz). No fundo, sabemos que manter os pés no chão é a melhor maneira de prevenir que nos machuquemos, mesmo que isso não seja uma garantia.

Na maior parte do tempo, o mantra não crie expectativas vem de nós mesmos e do medo de nos apegar ao que não sabemos se um dia será nosso. Vem de uma porção de gente que já passou pelas mesmas incertezas e usa os próprios calos e conselhos para passar uma mensagem quase que universal: o friozinho na barriga pode facilmente se tornar um mal-estar e ninguém precisa passar por isso.

Se estamos construindo algo, deveríamos saber que os riscos fazem parte de um processo do qual não temos o menor controle. Deixar as borboletas no estômago voarem para longe e livres em busca de algo novo não é nenhum pecado. Triste não é criar expectativas, é viver às sombras de traumas, não se permitir sentir e perder o primeiro capítulo de uma história — que é justo aquele que define se ela é digna ou não de ser lida.