Acabou Chorare

Você pode ler este post ao som de A menina dança, Novos Baianos.

Lançado pela Som Livre em 1972, Acabou Chorare é o segundo álbum de estúdio dos Novos Baianos. No ápice da Ditadura Militar, fazer música no Brasil era um grande desafio: representar o sentimento comum do brasileiro sedento pela volta da democracia sem falar explicitamente dela era o mínimo (e não perder a alegria melódica inerente à Música Popular Brasileira arte por si só). Sabemos que apenas os bons conseguem essa proeza.

Era uma tarde cinza dessas que baixa a nossa energia e nos faz questionar o conceito de felicidade. Eu, que basicamente só ouço música internacional, contemplava aquele momento de reflexões inoportunas com as faixas mais tristes de The Fray que eu poderia escolher. Foi quando recebi Preta Pretinha com uma mensagem subliminar de “vai ficar tudo bem“. O Pedro é daquelas pessoas que curtem as entrelinhas e as múltiplas interpretações — eu devo tê-lo agradecido usando a mesma estratégia (e se você não entendeu dessa forma naquele dia, fica aqui meu “muito obrigada”).

Eu sabia que já tinha ouvido aquela música alguma vez na minha vida. Talvez na época em que eu ainda dividia quarto com a minha irmã mais velha e ela colocava a Nova Brasil FM para tocar, bem baixinho, antes de dormir. Desde nova já tinha barulho demais dentro da cabeça quando caía a noite, então esperava ela apagar e desligava o rádio antes do timer de uma hora. Ela fingia que não percebia.

Apesar dessa rotina diária-noturna de doses de MPB, eu sempre me conectei mais com a música norte-americana. Talvez a forma como o estado-unidense sofre por amor seja parecida com a minha. Talvez eu tenha quebrado a conexão com as minhas próprias raízes brasileiras quando desligava o rádio na calada da noite.

O que eu sei é que Preta Pretinha me arrancou do estado de espírito cinza-depressivo em menos de dez segundos. Cogitei tentar encontrar na letra algo que eu pudesse associar com o que eu sentia, mas a melodia me trouxe o que nenhum desabafo de desilusões embalado por acordes de piano conseguiria. Eu, que não me sentia tão brasileira quando se trata de arte, me senti em casa.

Com suas reflexões inquietas e seu apego por álbuns inteiros, Pedro me fez lembrar de tudo isso quando propôs essa experiência musical tão pessoal. Acabou Chorare não é só um pacote completo e musicalmente complexo do cenário brasileiro, mas uma passagem para o universo dessa pessoa que, vira e mexe, me faz pensar em coisas cotidianas com uma profundidade ímpar.

Então, mais uma vez, no meio da desesperança, eu tentei ser a menina que dança, balançando timidamente na cadeira barata do escritório improvisado. Sei que nos momentos mais aleatórios vou me lembrar de Besta é tu e cantarolar pelas próximas duas horas. E por muito tempo não vou conseguir escolher entre a primeira e a segunda versão de Preta Pretinha, o que é ótimo para ocupar a cabeça enquanto o mundo acaba lá fora, mesmo ele estando inteiro em cada verso dessas músicas.

Acabou Chorare me lembrou que nem sempre a arte é sobre a gente, mas sobre nosso entorno. É sobre a lei natural dos encontros, onde a gente deixa, mas também recebe um tanto. É sobre trocar de universos por alguns instantes, transitar entre a melancolia de histórias de amores partidos e a história do nosso país, mesmo que com múltiplas interpretações. Ele passou a ser um lembrete de que sou mais brasileira do que achava ser e eu me senti em casa de novo. Às vezes é só o que a gente precisa.

Crédito da foto: Vinicius Pontes

A tal da responsabilidade afetiva

Você pode ler este post ao som de Dancing on my own, Callum Scott

Eu conheci o Gael* no meu aniversário de vinte e um anos, numa balada na Baixo Augusta chamada Astronete que acabou fechando logo depois. Ele era um dos bartenders e me chamou a atenção no primeiro olhar. Alguns drinks depois (feitos por ele mesmo, inclusive), criei coragem e pedi um guardanapo para anotar meu número de telefone, o que fez com que eu me sentisse a mulher mais corajosa daquela noite. No fundo, eu não achei que ele fosse me mandar mensagem no dia seguinte. Mas ele mandou.

Nos falávamos por horas a fio e, no fim de semana seguinte, ele atravessou a cidade para me encontrar em uma despedida de uma amiga que ia estudar fora. Ele conheceu parte dos meus amigos, fez questão de interagir e ser simpático com todos eles. Tivemos uma noite incrível, cheia de beijos e conversas. E expectativas foram criadas.

Gael se despediu de mim com um beijo suave nos lábios, dizendo que mal podia esperar pelo nosso próximo encontro — um jantar em um restaurante mexicano. Tínhamos chegado a essa conclusão quando eu disse que era uma das minhas culinárias favoritas e descobri que tínhamos isso também em comum. Então eu nunca mais o vi.

Aquilo nunca tinha me acontecido, não que eu tivesse percebido ou de forma tão brusca. Lances e romances anteriores tendiam a acabar naturalmente, quando morria o assunto ou qualquer coisa que mantinha tudo vivo. Mas eu nunca tinha cruzado com alguém que simplesmente sumiria. Eu me lembro de ter mandado mensagem para ele no dia seguinte e ter ficado alguns dias sem resposta. Até que escrevi de novo, perguntando se estava tudo bem, e ele me disse que andava muito ocupado – ali foi minha deixa para me retirar.

Não posso dizer que amava Gael, mas tinha curtido a forma como a gente havia se cruzado e as coisas acontecido — sabe o destino? E de uma hora para outra, me vi pesquisando no Google uma razão coerente para ele simplesmente ter ido embora sem dar tchau.

Naquela época (2013), o termo ghosting nem sequer existia – minha terapeuta brinca que fui eu quem o inseriu no vocabulário dos relacionamentos modernos. E era muito isso, uma pessoa real que desaparecia como se tivesse morrido, virado um fantasma. De lá para cá, perdi as contas de quantos Gaéis apareceram na minha vida, o que tem me feito refletir muito sobre ter responsabilidade com o sentimento alheio.

Li outro dia uma frase que ficou marcada: “às vezes o que não significa nada para você pode significar muito para o outro”. Sei que ninguém nasce pleno e sensato e só faz o bem. Eu já devo ter sido esse tipo de filha da puta e reconheço (e abro esse parêntese para pedir desculpas se um dia fui com quem estiver lendo). Um encontro para o Gael pode ter sido só um encontro – ou ele pode ter mudado de ideia no meio do caminho, o que não julgo. Para mim, foi o surgimento de um sentimento de que algo bom poderia acontecer ali.

Precisamos levar em consideração o quão essencial é deixar o outro saber das nossas intenções – e com clareza. O tempo que uma pessoa espera para entender seus sentimentos e a forma com que ela age podem ser o espaço-tempo perfeito para a outra se envolver. Se você transmite uma mensagem diferente do que sente, o outro pode simplesmente acreditar em você e sofrer quando descobrir que não era bem por aí. Quando você não consegue terminar uma relação, por menor que ela seja, e simplesmente ignora a existência de quem esteve ali por você, isso pode causar danos e traumas, às vezes irreparáveis.

Ninguém é obrigado a gostar de ninguém ou querer a mesma coisa que a outra pessoa quer. A forma como o outro lida com suas rejeições não cabe a gente decifrar, mas tentar ter o mínimo de dignidade e sair pela porta da frente é o que pode poupar alguém (que gosta de você, diga-se de passagem) de um sofrimento ainda maior. A comunicação nunca foi tão importante, ainda mais em uma época repleta de recursos para tal.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem.

Crédito da foto: StockSnap–894430

A canoa

Você pode ler este post ao som de Beautiful girl, Sara Bareilles

Era uma quarta-feira dessas de quase verão bem esquisitas — que faz um calor abafado quase que insuportável e termina com uma chuva torrencial que ninguém sabe de onde vem. Meu escritório era uma mesa desarrumada dentro do meu quarto com pouca ventilação, onde meus ursinhos de pelúcia antigos e minha cachorra me assistiam trabalhar. Perdi a conta de quantas abas e arquivos de word me encaravam e a inspiração que eu deveria ter parecia ter se dissipado no meio de todas elas.

Eu havia cruzado com Fernando* no aplicativo fazia alguns dias, mas nosso encontro, ao que parecia, estava longe de acontecer. Nossas rotinas não queriam que aquele match acontecesse na vida real e o tempo passava e me deixava ainda mais curiosa. Eu não queria saber se ele era atraente, mas queria ouvir sua voz. Não queria saber se o papo era legal (o que parecia ser pelas mensagens que a gente trocava), mas sentir o peso da sua energia. Queria conhecer a pessoa que ele era e não continuar criando uma personagem na cabeça.

A chuva ainda caía lá fora e eu tinha um único desejo que era sentar em uma cadeira que não fosse aquela barulhenta do meu quarto e tomar uma cerveja. São poucas vezes na vida que eu não me importo com temporais de verão, ainda mais quando a ideia de encontrar alguém novo invadia tudo que passava ou deixava de passar pela minha cabeça. Parei, pensei bem: quem é que vai querer sair pra me ver com esse tempo?

No meio do meu gole de café, no dia seguinte, Adriana* me disse uma coisa que eu acredito jamais esquecer: “se eu fosse esse cara, eu te buscaria de canoa na sua casa para ir aonde quer que fosse“. Com esse comentário, coisas muito peculiares começaram a passar pela minha cabeça:

  1. não sei se eu sou tão legal assim não sei se iriam me achar tão legal assim
  2. será que eu valho um passeio de canoa será que ele teria uma canoa
  3. quem sairia nessa chuva comigo será que ele sairia nessa chuva comigo

Eu nem havia chegado a perguntar para ele se ele queria ou não sair comigo, no meio da semana e da possível enchente. Talvez ele até aceitasse, inventasse uma desculpa ou sei lá o quê, isso não importava. Fiquei pensando na razão de eu não ter nem chamado. Seria baixa autoestima? Seria. Não tem muito o que dizer.

Eu queria muito enxergar, pelo menos, dez porcento do que as minhas amigas enxergam em mim. Acreditar que o que elas dizem ao meu respeito é genuíno e não só porque elas me amam. Acreditar que essa admiração é vista e desejada por outras pessoas fora do meu círculo de amizades.

Mas, no fundo, a gente sabe que não é bem assim que as coisas funcionam. Num mundo imagético, tecnológico, com aparatos oferecendo diversas opções a todo vapor, é perigosamente fácil contestar nosso valor. É uma dança sem coreografia bem definida de tentar superar aquele reflexo no espelho e, ao mesmo tempo, enxergar nossas singularidades e sermos gentis com a gente mesmo.

O que a gente pensa sobre quem a gente é pode ser a nossa melhor arma — seja contra os encontros mais furados da vida ou de pessoas que não valem a pena nosso tempo, seja optar por aceitar ou não menos do que a gente merece. Se quem a gente gosta vai vir de carruagem, bicicleta, canoa ou simplesmente não vir, isso foge completamente do nosso controle. Nosso amor próprio não.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das personagens.

Crédito da foto: Oleg M Kulishov

Marcas

Você pode ler este post ao som de 6th Avenue Heartache, The Wallflowers

Ficar em um mesmo lugar por muito tempo faz você criar novas perspectivas para o que sempre esteve ali. O bar que você frequenta há anos e já sabe até o nome dos garçons, os relacionamentos longos que cultiva, a casa onde sempre morou, tudo muda. E nem sempre mudanças são confortáveis, o que traz aquela inquietação em fazer algo para nos sentirmos em um território conhecido e seguro de novo.

Há uns anos atrás, colei uns adesivos e quadros perto da minha cama que, ultimamente, começaram a me incomodar. Eles não sairiam dali naturalmente, o que era óbvio, então decidi me livrar deles e criar uma nova identidade para o ambiente. O resultado foi uma troca muito ingrata, eu passei a ter marcas de fita adesiva por todos os lados. Para uma pessoa normal, aquilo seria muito fácil de resolver; erá só pintar a parede e começar do zero. Eu, no entanto, optei por trocar o guarda-roupa de lugar e cobrir a parede defeituosa com ele.

O móvel era pesado, então precisei tirar tudo o que tinha de dentro e espalhar por onde quer que houvesse espaço — gerando ainda mais desordem e arrependimento. Convoquei meu irmão para arrastá-lo e me acompanhar na crise de riso e de nervoso que se seguia nos próximos passos daquela saga. É engraçado como os atalhos que a gente cria para resolver problemas soam sempre inéditos. Raramente temos lapsos de consciência que nos dizem que o caminho pode ser mais fácil, mas o tiro sai pela culatra. Atrás do guarda-roupa tinha outras marcas antigas que diziam em alto e bom som você já fez isso antes. As coisas estavam fora do lugar na minha casa, mas começaram a se encaixar na minha cabeça.

Eu tinha passado a vida inteira arrastando guarda-roupas metafóricos e lidando com os restos de perspectivas antigas. A solução (o tal do balde de tinta) me assistindo de camarote enquanto eu fugia, cobria, arrancava, encarava o que nem era a tática mais simples. Eu escolhi a parede que estava em melhor estado e rearranjei meu quarto de uma forma que mostrasse que aquilo tudo tinha valido a pena. Provavelmente encontraria algo que cobrisse o que restou daquela bagunça que acabara de se internalizar.

A faxina havia surgido do tédio, mas sufocar questões mal resolvidas parecia ser pura teimosia. Quantas pessoas não haviam sido a cobertura de paredes impenetráveis pela falta de reciprocidade? Quantas validações externas tapearam a crença que eu precisava ter em mim mesma? Quantas vezes eu trocara perguntas diretas por mensagens com duplos sentidos para adiar alguma verdade, muitas vezes estampada para todo mundo ver?

E nenhum desses processos era leve ou fácil de se arrastar por aí. Quase todos bagunçaram ainda mais a casa. Alongaram enredos que poderiam ter me machucado menos se eu tivesse tomado o tempo certo das coisas, tido paciência para a tinta secar, para as feridas sararem.

Tudo muda, isso é certo. Se a mudança vem de dentro para fora pelo nosso olhar, ou se ela faz a gente se adaptar a novos cenários, o importante é nos conhecermos e nos aceitarmos dentro deles. Entender que saídas instantâneas podem bater na nossa porta, cedo ou tarde, nos provando que não somos tão espertos assim.

Crédito da foto: Dương Nhân

 

 

Acredite: se apaixonar já foi bom

Você pode ler este post ao som de In your atmosphere, John Mayer.

É o seguinte, meninas: nós vamos voltar para o bar e encontrar o boy da Grazi*, depois vamos para casa nos arrumar e ir para o Saravá. Eu já estava arrependida de ter dito que tudo bem fazer dois rolês em um dia enquanto carregava uma gripe e uma semana intensa nas costas — e a Mariana* mal tinha terminado a frase. Descíamos uma rua desconhecida, de um bairro sorocabano também desconhecido ao passo que o efeito do álcool e dos analgésicos ia passando.

O lugar tinha diminuído em meia-hora em que estivemos fora, o número de pessoas aumentado e a qualidade da música melhorado consideravelmente. A energia do lugar estava mais vibrante, gente fantasiada para todo lado — como um bom carnaval — olhares em busca de outros olhares, sorrisos encontrando outros sorrisos. Não demorou muito para presenciarmos os beijos despretenciosamente carnavalescos mais esperados da noite. E continuamos dançando, rindo, álcool indo embora.

Uma coisa muito interessante sobre esses grandes eventos é a rapidez das coisas. Você está plena tomando sua cerveja quente ou checando redes sociais. No segundo seguinte tem um cara te agarrando. E você não vê uma seção de eventos que faça sentido, o nome dele eu saberia bem depois, pois ao som de Netinho tudo fica muito confuso. E tem aquele papo pós agarramento desconfortante em que ele comenta que aquela música marcou muito a época dele e fala que você é nova demais para saber. Tudo isso em slow motion e você se pergunta de onde aquele cara saiu. É carvanal, Joy!, elas disseram.

E era carnaval. E o Eduardo* (era esse o nome dele!) me lembrava algum ator da Globo, além de usar um perfume gostoso. E estava tudo bem ou estaria tudo bem em outras circunstâncias. Tinha algo me incomodando e eu só fui descobrir o que era no dia seguinte. GPS ‘tava ok. Playlist ok. Dinheiro do pedágio ok. Cabeça not so ok.

Droga.

Eu sabia o que era.

E lá íamos nós de novo, pela estrada metafórica mais agonizante que a volta para casa em pleno feriado. O problema não era quem eu tinha beijado, mas quem eu queria ter beijado todos aqueles dias. Quem não saía da minha cabeça e fazia meu coração dar tranquinhos toda vez que uma mensagem nova chegava. O lance que eu não tinha a menor ideia do que iria virar e até dois dias atrás estava tudo bem não saber.

Em algum lugar do tempo, distante, bem pequeno, houve uma época em que estar apaixonado por alguém era motivo de alegria, de liberdade, de se sentir vivo. E, por incrível que pareça, eu tento arduamente manter esse pensamento (a música Someone New do Hozier me descreve bem nessa esfera). Pessoalmente, não tem nada mais altruísta e inspirador que enxergar além do que se vê. Ver tudo transparente no meio de um monte de nuvem cinza. Eu sei que não faz sentido algum, mas não é para fazer, certo? Nunca foi.

A vida adulta traz consigo uma casca. Nossas cicatrizes têm nos tornado pessoas receosas, ansiosas e amargas. Não existe mais pensamento positivo em torno daquilo que — ou de quem — se quer. Nossas aspirações amorosas já vêm com data de validade e perdemos toda a magia da incerteza porque não nos damos mais o tempo de seguir em frente com algo mesmo assim. Se isso não for triste, eu já nem sei mais o que é triste.

De quilômetro em quilômetro, a ansiedade aumentava. Stevie Wonder, The Cure, Pearl Jam. Nada aquietava a cabeça. Eu tinha sido pega pelo bichinho que deixa o frio na barriga congelar o corpo inteiro até pedirmos arrego, pedirmos para sair. Eu não queria mais sentir aquilo tudo. Queria que aquela boca aleatória não tivesse me trago o gosto amargo desse medo que ia me fazer ouvir John Mayer por uma semana seguida.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das personagens.

Crédito da foto: Picography

Café forte

Você pode ler este post ao som de Stay or Leave, Dave Matthews

A gente trocava nossos drinks de gin a cada teoria maluca ou realidade crua do mundo adulto. O bar estava claramente fechando e eu me sentia paralisada enquanto meu riso ecoava entre portas fechadas e cadeiras em cima das mesas. Estávamos ali, frente a frente, e parecia o primeiro encontro. Tínhamos várias histórias dentro de uma e eu sabia que aquela poderia acabar a qualquer momento. Alex* me ensinava a viver os instantes como ninguém — se não podemos prever o futuro, com ele eu nunca tinha a mínima ideia.

Eu nunca gostei de café forte. Sendo sincera, nem fraco demais, o que é estranho para uma pessoa que navega entre extremos. Entre doce e salgado, prefiro doce. Calor a frio e por aí vai. Ou é ou não é foi a frase que se colidia entre a parede e ele quando achei que aquela seria a última vez que fôssemos nos falar. “Assustei o cara” era um pensamento que corroía a cabeça conforme o coração batia forte na adrenalina de, finalmente, esclarecer o que eu esperava dele. No fim, quem se assustou fui eu.

Nosso ritmo seguia como o café amargo sem açúcar do qual eu não gostava nem um pouco. Ele se retirava do espaço, esquecendo um pouco de si em cada memória que fizera. Eu lutava contra o arrepio na espinha cada vez que me lembrava da sua respiração profunda no meio da noite, seu corpo quente entrelaçado no meu. Era uma batalha diária com cada palavra que tirava outro vagão do meu trem descarrilhado dos trilhos.

Ele me ofereceu café e eu disse sim, me sentindo um tanto culpada de ele ter que fazer algo por mim. “Acho que ficou forte”. Nunca gostei de café forte, nem fraco demais, o que era estranho para uma pessoa que navega entre extremos, mas fazia total sentido para quem vivia cada dia ao lado de alguém como se fosse o último. Coloquei açúcar no que não parecia ser o café que eu gostaria e fechei os olhos. O primeiro gole resumiu o que eu mais temia: naquele domingo à tarde, que para a gente ainda era uma manhã despretensiosa, eu tomei o melhor café da minha vida.

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.

Crédito da foto: Madison Inouye

Os desaforos que eu levei para casa

Você pode ler este post ao som de Bad Blood, Taylor Swift

Quem nunca ouviu um “não dê este gostinho para Fulano de Tal” e teve que engolir o choro para que um agressor não pudesse ver o sofrimento que causou que atire a primeira pedra. “O que vem de baixo não me atinge” também é uma versão clássica do orgulho de quem é inabalável. Você estava lá, estrupiado, depois de sofrer bullying na escola ou de engolir o sapo mais amargo no trabalho, mas esboça aquele sorriso amarelo de “tá tudo bem, gente“. Você é forte, eles disseram.

Cresci trazendo desaforo para casa para não arrumar briga na escola. Tendo que concordar com absolutamente tudo que os meus pais diziam, fazendo sentido para a minha realidade ou não. Quando comecei a dirigir, a instrução era: se bater o carro, já desce falando que vai pagar. Até que um dia bateram em mim e eu disse que ia pagar, cheguei em casa, não entendi o que tinha acontecido ou porque tinha feito tal promessa. Mulher, ainda, não podia desmoronar, não podia dar de louca e, muito menos, ter razão.

Uma outra vez, eu sofri um abuso e a pessoa me mandou mensagem no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Eu, completamente em choque — e, mais uma vez, tentando entender o que tinha acontecido — ativei a ferramenta que a gente mais gosta de usar no mundo da tecnologia: bloquear. Ergui a cabeça, sequei a lágrima e segui “forte”, como as pessoas queriam me ver.

Fui me tornando uma muralha, que pedia desculpas o tempo todo, mesmo quando eu era quem deveria desculpar. Que não dava o prazer para um filho da p*ta ver que me fez sofrer e que fazia piada da própria desgraça. O muro ficou grande demais e me cercou com toda a bagagem acumulada de anos sem dar o gosto ou o prazer ou o que quer que fosse para todas as pessoas que me afetaram negativamente ao longo da vida. O muro me enclausurou e todo o feedback que eu tinha recebido para ser alguém melhor, mas que eu não podia dar para pessoas relativamente ruins, caiu por terra.

Esquece essa história, Ciclano não vale a pena“. Foi então que eu entendi que não só o Ciclano não valia apena, quanto amargurar um sentimento ruim dentro de mim também não. Não vou esquecer, não é fácil assim. E sabe quem também não vai esquecer? O bêbado que bateu no meu carro, o embuste que me tratou como objeto, a “amiga” que achava que eu era obrigada a me afundar junto com ela, o psicopata que tentou manipular minha mente a seu favor e o professor da quinta série que me fez chorar na frente da sala toda porque ele simplesmente podia.

Há uma ponte que divide muito bem a exposição de uma ferida e a tentativa de tapar um buraco de bala com um band-aid. Chega uma hora que a voz se esvai, a lágrima rola e não é mais no meio da noite, é para uma plateia inteira. Isso não nos torna fracos, mas humanos. Ajuda a escoar o ódio que temos o direito de sentir e nos previne de que ele vire um rancor que pode nos destruir.

Ainda tem muito tijolo para cair de tudo que me cerca, mas posso dizer que me sinto mais leve, que consigo respirar. O que cada pessoa faz com a consequência de seus atos não me diz respeito, mas é importante que quem faz mal saiba que nem tudo é sobre ele. Que não temos que fingir que está tudo bem para provar algo ou fazer com que a pessoa que nos machucou vire o jogo para se sentir melhor. Perdoar é importante, mas se permitir sentir, lidar com a dor e aprender as lições que nos são dadas ao longo do caminho são atitudes tão importantes quanto. Não adianta aliviar a consciência do outro enquanto a sua própria te mata. Lentamente.

Credito da foto: Revista Vogue

O jovem moderno que queria estar em forma

Você pode ler este post ao som de qualquer música que faça você querer se mexer.

Nunca gostei de esportes. Não acredito que tenha sido por falta de incentivo familiar, visto que minha mãe é a pessoa mais fisicamente ativa que eu conheço e meu irmão era sempre visto com uma bola. Acontece que a vida inteira fui desastrada e me senti desengonçada com meu próprio corpo. Quer ver um show de horrores peça para eu dançar — o que provavelmente vou fazer mesmo assim para entreter pessoas.

Eu me lembro da época da escola, o professor de educação física dividia os esportes por bimestre e a vez do voleibol era a única que me fazia parar de cabular aula para comer as amoras dos pés que ficavam em volta da quadra. Algo na lógica do jogo me chamava a atenção: o posicionamento dos jogadores que sempre mudava, a bola no alto, os movimentos. Eu, que nem sequer acompanho os jogos do Brasil na Copa do Mundo, me pegava assistindo às partidas de vôlei nas olimpíadas, encantada.

Como todo jovem da modernidade que quer estar minimamente em forma, passei o começo da minha vida adulta pagando academias e falhando miseravelmente na hora mais importante, que era a de ir até lá e treinar.  Constantemente com a sensação de estar fazendo algo errado que pudesse me levar a uma paralisia das pernas (ou pior), eu ficava observando as pessoas e me perguntando por que raios eu estava ali. Sabia, no fundo, que nunca teria um corpo de paniquete ou de angel da Victoria’s Secrets.

Decidi que tinha que ser mais forte que o Chandler de Friends (seriously, man, you gotta quit the gym) e quebrar meu contrato com a SmartFit de uma vez por todas. A moça da recepção fez todo o processo em menos de cinco minutos com o olhar de quem sabia que eu voltaria em alguns meses, vestindo alguns números a mais. Contudo, meu plano para estar em forma acabara de começar. Decidi praticar o único esporte que gostei.

Óbvio que levei mais uns dois meses de ensaio para começar as aulas, que fiquei doente e desanimada, direcionada à aceitação da minha condição sedentária. Até que em uma bela manhã, ao pegar minha cachorra de dezesseis quilos no colo e passar uma semana sem conseguir me virar na cama à noite porque minha lombar me matava, decidi que era a hora de literalmente me mexer.

Pisquei e estava em quadra, passando a bola para uma outra mulher iniciante. “Vamos imitando a galera“, ela dizia conforme os passes mudavam. Na segunda manchete, achei que meus braços fossem cair e fiquei aliviada de estar praticando com alguém que sentia o mesmo. Com as redes já posicionadas, o professor do clube esportivo que ficava em Pinheiros designou quem ia para cada time e eu comecei a lembrar de como as pessoas podiam ser competitivas nos esportes.

Muito de um jogo de voleibol se parece com a vida adulta: tem aquela pessoa que vai, genuinamente, te ajudar. Tem aquela que pensa no time como um todo e ou você vai ser ajudada ou levada pelo próprio jogo, sem muitas escolhas. Qualquer desvio de atenção pode resultar em uma bolada na cara ou alguém caindo por cima de você e a proatividade se torna um meio de sobrevivência obrigatório. Pelo time, ou seja lá o que for, tem sempre aquele dedicado que vai se jogar no chão e se estrupiar inteiro, enquanto o outro ainda está perdido sem saber muito o que fazer com a bola que vem vindo em sua direção. É uma selva, mas é a nossa vida.

Voltei para casa refletindo muito sobre como aquela aula representava milhares de outras coisas, uma delas era não desistir quando algo fica difícil. É cair e levantar. Secar o sangue e a lágrima e continuar correndo. Conviver com a dor e lembrar do porque ela está ali. Comer um pedaço imenso de bolo e conseguir seguir com a dieta mesmo assim, afinal, uma falha não é o todo. Não levar tudo para o pessoal, nem todo mundo sabe o que fala. Entender o calor do momento e saber conviver consigo mesmo quando tudo ficar frio. Desapegar do conformismo e passar a bola pra frente quando necessário.

Não sei quanto tempo minha animação vai durar e confesso que pensei em nunca mais voltar àquela quadra quando o primeiro cara foi grosso comigo. Surpreendentemente, enxerguei aquela experiência com lentes que nem imaginava que existissem. Se ficarei em forma, ou não, aí já é uma história diferente, mas sei que há uma grande chance de me fortalecer como pessoa — e encontrar essa oportunidade nos momentos mais improváveis não tem preço.

Crédito da imagem: Tribuna do Norte

 

A manhã seguinte

Você pode ler este post ao som de Riptide, Vance Joy

Podia-se ouvir o cantarolar de um bar inteiro animado com ACDC. O vocalista da banda cover de rock clássico destoava de todo o resto: uma camisa branca fazia par com um cachecol que parecia ser demais para um local fechado e nada frio. E tinha o sapatênis, aquele que o Alex* fez questão de associar com alguma piada interna que tinha com seus amigos. O riso dele se misturava bem com os acordes de guitarra.

Já havia perdido as contas de quantas cervejas tinha tomado ou de quantas conversas profundas tínhamos tido, enquanto ele insistia em questionar minha vontade de ter um banjo. Fazia tempo que não encontrava alguém com quem dividisse as mesmas paixões, mesmo nossas reflexões entrando em algum impasse. E essa era uma das maiores razões de eu estar no meio daquele barulho, depois de uma semana barulhenta o suficiente.

Duas garrafas vazias se encontraram no balcão do bar, o canto aparentemente mais tranquilo do segundo andar. Nossos lábios fizeram um caminho parecido e o redor já não girava mais. Bon Jovi foi testemunha de que a sintonia ia muito mais além de duas pessoas envolvidas pela música. Livin’ on a prayer tinha acabado de ganhar um novo contexto. Talvez aquele homem nem tão desconhecido também.

Então eu pisquei e tudo tinha mudado. O papo, o tom de voz, os pensamentos e o cenário. A música que tocava ao fundo havia sido cuidadosamente escolhida quando criei a playlist, alguns dias antes. O volume era adequado à hora da madrugada e a sensação de não saber o que fazer havia se dissipado na circunstância. Meu olhar dançava pelo cômodo, curioso pelos livros, discos e instrumentos. Dançava pelo dele, contornando a atmosfera leve.

Acordei e a luz que atravessava a cortina denunciava o dia. Ouvia uma respiração profunda que se confundia com a minha. A imagem era crua, fruto de uma fantasia prematura que quebrava um ciclo maior que qualquer incerteza. Eu não sabia onde estava, mesmo sabendo. Havia me deixado levar por tanto: a expectativa, o álcool, a conversa desprendida, as mãos dele dançando pelo meu corpo.

Por mais orgânico que o encontro tenha sido, a claridade trazia reflexões que não previra. Não necessariamente naquela manhã, mas cada vez que pensava nele. É engraçado como nos conectamos sem saber direito quem está próximo. Criamos um sentimento difícil de decifrar e que pode mudar a cada segundo, escorrer entre os dedos, perfurando versos. Algumas pessoas são canções que não podem ser lidas se não ouvidas previamente, por mais precisas que sejam suas composições. Alex era uma delas.

Comecei a trocar as palavras, enquanto ele media as suas. Parece que já sei tudo sobre quem ele é, mas sei tão pouco. Talvez ele saiba o suficiente do que deixei transparecer nas histórias que nem me lembro de ter contado. Talvez aquela conversa em que eu já não falava nada que fizesse sentido até adormecer seja o que ficou na manhã seguinte.

Cada vez que a gente se despede parece a primeira — e eu nunca sei se será a última. Mesmo compreendendo as claves, brincando entre melodias, eu me sinto fora do tom, perdida no tempo. Eu, que sempre viajei pela profundidade, tenho encontrado na superfície as notas mais difíceis de serem alcançadas.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem.

Crédito da imagem: Tookapic

 

A teoria do prato giratório

Você pode ler este post ao som de Don’t you want me, The Human League

Éramos em três mulheres, de idades diferentes dentro de um carro no trânsito da Lapa, em São Paulo. De repente, uma crise de ansiedade se transforma em uma de riso, ecoando dentre teorias, conselhos e histórias parecidas. Não diria toda mulher, mas acredito que toda pessoa já se sentiu insegura em se relacionar na era tecnológica — ou pelo menos tentar. Será que mando mensagem? Quem foi que chamou o outro para sair da última vez? O assunto morreu, o que eu falo agora? são algumas perguntas que a gente se pega fazendo em um fim de tarde, enquanto tentamos sobreviver mais um dia caótico do mundo moderno.

Com tantos meios comunicação, nossa sociedade se calou. Descobrimos, da forma mais amarga, a diferença entre conversar com alguém ou apenas responder uma mensagem visualizada. E nós agradecemos a resposta, porque o silêncio também é uma forma de falar e ele causa ainda mais desconforto em quem tem interesse e não tem medo de demonstrá-lo. Não é à toa que estamos, todos, narrando nossos próprios enredos e tirando qualquer conclusão sem ter a chance de entender e de ser entendido.

Patricia* aproveitou o farol fechado da Avenida dos Bandeirantes e desceu. A conversa continuou: fala de você, passei a bola para a próxima odisseia preencher os últimos quinze minutos até o destino final. Tabatha* encara o para-brisa: ele fala que quer sair, mas nunca está disponível. É como se estivesse sempre ali, sem estar. Eu continuo, em pensamento: esperando o momento mais conveniente para ele, talvez. Ela, então, fala algo sobre o pratinho girando no meio dessa espera. O famoso não f*de e nem sai de cima. As pessoas não cortam laços e, ao mesmo tempo, querem manter vivas as expectativas do outro para caso ela ainda tenha a passagem livre em algum espaço-tempo mais favorável. O prato continua girando, enquanto nada vai acontecendo.

Na realidade, a teoria do prato giratório não está diretamente relacionada às novas tecnologias — ela simplesmente foi enaltecida com elas e facilitou todo o processo. O ser humano constrói o prato, cria todo o movimento e se cansa: mas é egocêntrico o suficiente para largar o osso. A maioria das pessoas não tem a capacidade de dizer que a festa acabou para que paremos de dançar. Apagam-se as luzes e fica-se a dica. São entrelinhas para serem lidas na escuridão, enquanto estamos agarrados no prato, nos segurando para não cair. Girando e girando – e esperando também.

Se a cada dia aprendemos novas formas de conhecer pessoas e criar novos vínculos, precisamos descobrir, mais do que nunca, como identificar nossas deixas. A música rolando em um volume menos animado pode ser nossa chance de nos aquietarmos. Pegar nosso prato com mãos firmes e encontrar um lugar mais seguro para a movimentação da nossa própria energia. Ouvimos tanto que tempo é valioso, mas nos esquecemos que a energia é o que nos move. E dançar sem uma plateia digna da coreografia parece ser o maior erro que cometemos.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das personagens.

Crédito da foto: Elijah O’Donnell