Marcas

Você pode ler este post ao som de 6th Avenue Heartache, The Wallflowers

Ficar em um mesmo lugar por muito tempo faz você criar novas perspectivas para o que sempre esteve ali. O bar que você frequenta há anos e já sabe até o nome dos garçons, os relacionamentos longos que cultiva, a casa onde sempre morou, tudo muda. E nem sempre mudanças são confortáveis, o que traz aquela inquietação em fazer algo para nos sentirmos em um território conhecido e seguro de novo.

Há uns anos atrás, colei uns adesivos e quadros perto da minha cama que, ultimamente, começaram a me incomodar. Eles não sairiam dali naturalmente, o que era óbvio, então decidi me livrar deles e criar uma nova identidade para o ambiente. O resultado foi uma troca muito ingrata, eu passei a ter marcas de fita adesiva por todos os lados. Para uma pessoa normal, aquilo seria muito fácil de resolver; erá só pintar a parede e começar do zero. Eu, no entanto, optei por trocar o guarda-roupa de lugar e cobrir a parede defeituosa com ele.

O móvel era pesado, então precisei tirar tudo o que tinha de dentro e espalhar por onde quer que houvesse espaço — gerando ainda mais desordem e arrependimento. Convoquei meu irmão para arrastá-lo e me acompanhar na crise de riso e de nervoso que se seguia nos próximos passos daquela saga. É engraçado como os atalhos que a gente cria para resolver problemas soam sempre inéditos. Raramente temos lapsos de consciência que nos dizem que o caminho pode ser mais fácil, mas o tiro sai pela culatra. Atrás do guarda-roupa tinha outras marcas antigas que diziam em alto e bom som você já fez isso antes. As coisas estavam fora do lugar na minha casa, mas começaram a se encaixar na minha cabeça.

Eu tinha passado a vida inteira arrastando guarda-roupas metafóricos e lidando com os restos de perspectivas antigas. A solução (o tal do balde de tinta) me assistindo de camarote enquanto eu fugia, cobria, arrancava, encarava o que nem era a tática mais simples. Eu escolhi a parede que estava em melhor estado e rearranjei meu quarto de uma forma que mostrasse que aquilo tudo tinha valido a pena. Provavelmente encontraria algo que cobrisse o que restou daquela bagunça que acabara de se internalizar.

A faxina havia surgido do tédio, mas sufocar questões mal resolvidas parecia ser pura teimosia. Quantas pessoas não haviam sido a cobertura de paredes impenetráveis pela falta de reciprocidade? Quantas validações externas tapearam a crença que eu precisava ter em mim mesma? Quantas vezes eu trocara perguntas diretas por mensagens com duplos sentidos para adiar alguma verdade, muitas vezes estampada para todo mundo ver?

E nenhum desses processos era leve ou fácil de se arrastar por aí. Quase todos bagunçaram ainda mais a casa. Alongaram enredos que poderiam ter me machucado menos se eu tivesse tomado o tempo certo das coisas, tido paciência para a tinta secar, para as feridas sararem.

Tudo muda, isso é certo. Se a mudança vem de dentro para fora pelo nosso olhar, ou se ela faz a gente se adaptar a novos cenários, o importante é nos conhecermos e nos aceitarmos dentro deles. Entender que saídas instantâneas podem bater na nossa porta, cedo ou tarde, nos provando que não somos tão espertos assim.

Crédito da foto: Dương Nhân

 

 

Acredite: se apaixonar já foi bom

Você pode ler este post ao som de In your atmosphere, John Mayer.

É o seguinte, meninas: nós vamos voltar para o bar e encontrar o boy da Grazi*, depois vamos para casa nos arrumar e ir para o Saravá. Eu já estava arrependida de ter dito que tudo bem fazer dois rolês em um dia enquanto carregava uma gripe e uma semana intensa nas costas — e a Mariana* mal tinha terminado a frase. Descíamos uma rua desconhecida, de um bairro sorocabano também desconhecido ao passo que o efeito do álcool e dos analgésicos ia passando.

O lugar tinha diminuído em meia-hora em que estivemos fora, o número de pessoas aumentado e a qualidade da música melhorado consideravelmente. A energia do lugar estava mais vibrante, gente fantasiada para todo lado — como um bom carnaval — olhares em busca de outros olhares, sorrisos encontrando outros sorrisos. Não demorou muito para presenciarmos os beijos despretenciosamente carnavalescos mais esperados da noite. E continuamos dançando, rindo, álcool indo embora.

Uma coisa muito interessante sobre esses grandes eventos é a rapidez das coisas. Você está plena tomando sua cerveja quente ou checando redes sociais. No segundo seguinte tem um cara te agarrando. E você não vê uma seção de eventos que faça sentido, o nome dele eu saberia bem depois, pois ao som de Netinho tudo fica muito confuso. E tem aquele papo pós agarramento desconfortante em que ele comenta que aquela música marcou muito a época dele e fala que você é nova demais para saber. Tudo isso em slow motion e você se pergunta de onde aquele cara saiu. É carvanal, Joy!, elas disseram.

E era carnaval. E o Eduardo* (era esse o nome dele!) me lembrava algum ator da Globo, além de usar um perfume gostoso. E estava tudo bem ou estaria tudo bem em outras circunstâncias. Tinha algo me incomodando e eu só fui descobrir o que era no dia seguinte. GPS ‘tava ok. Playlist ok. Dinheiro do pedágio ok. Cabeça not so ok.

Droga.

Eu sabia o que era.

E lá íamos nós de novo, pela estrada metafórica mais agonizante que a volta para casa em pleno feriado. O problema não era quem eu tinha beijado, mas quem eu queria ter beijado todos aqueles dias. Quem não saía da minha cabeça e fazia meu coração dar tranquinhos toda vez que uma mensagem nova chegava. O lance que eu não tinha a menor ideia do que iria virar e até dois dias atrás estava tudo bem não saber.

Em algum lugar do tempo, distante, bem pequeno, houve uma época em que estar apaixonado por alguém era motivo de alegria, de liberdade, de se sentir vivo. E, por incrível que pareça, eu tento arduamente manter esse pensamento (a música Someone New do Hozier me descreve bem nessa esfera). Pessoalmente, não tem nada mais altruísta e inspirador que enxergar além do que se vê. Ver tudo transparente no meio de um monte de nuvem cinza. Eu sei que não faz sentido algum, mas não é para fazer, certo? Nunca foi.

A vida adulta traz consigo uma casca. Nossas cicatrizes têm nos tornado pessoas receosas, ansiosas e amargas. Não existe mais pensamento positivo em torno daquilo que — ou de quem — se quer. Nossas aspirações amorosas já vem com data de validade e perdemos toda a magia da incerteza porque não nos damos mais o tempo de seguir em frente com algo mesmo assim. Se isso não for triste, eu já nem sei mais o que é triste.

De quilômetro em quilômetro, a ansiedade aumentava. Stevie Wonder, The Cure, Pearl Jam. Nada aquietava a cabeça. Eu tinha sido pega pelo bichinho que deixa o frio na barriga congelar o corpo inteiro até pedirmos arrego, pedirmos para sair. Eu não queria mais sentir aquilo tudo. Queria que aquela boca aleatória não tivesse me trago o gosto amargo desse medo que ia me fazer ouvir John Mayer por uma semana seguida.

Se apaixonar já foi legal, gente. Eu deveria ter uns doze anos de idade quando isso aconteceu, mas é verdade: já foi muito bom.

Café forte

Você pode ler este post ao som de Stay or Leave, Dave Matthews

A gente trocava nossos drinks de gin a cada teoria maluca ou realidade crua do mundo adulto. O bar estava claramente fechando e eu me sentia paralisada enquanto meu riso ecoava entre portas fechadas e cadeiras em cima das mesas. Estávamos ali, frente a frente, e parecia o primeiro encontro. Tínhamos várias histórias dentro de uma e eu sabia que aquela poderia acabar a qualquer momento. Alex me ensinava a viver os instantes como ninguém — se não podemos prever o futuro, com ele eu nunca tinha a mínima ideia.

Eu nunca gostei de café forte. Sendo sincera, nem fraco demais, o que é estranho para uma pessoa que navega entre extremos. Entre doce e salgado, prefiro doce. Calor a frio e por aí vai. Ou é ou não é foi a frase que se colidia entre a parede e ele quando achei que aquela seria a última vez que fôssemos nos falar. “Assustei o cara” era um pensamento que corroía a cabeça conforme o coração batia forte na adrenalina de, finalmente, esclarecer o que eu esperava dele. No fim, quem se assustou fui eu.

Nosso ritmo seguia como o café amargo sem açúcar do qual eu não gostava nem um pouco. Ele se retirava do espaço, esquecendo um pouco de si em cada memória que fizera. Eu lutava contra o arrepio na espinha cada vez que me lembrava da sua respiração profunda no meio da noite, seu corpo quente entrelaçado no meu. Era uma batalha diária com cada palavra que tirava outro vagão do meu trem descarrilhado dos trilhos.

Ele me ofereceu café e eu disse sim, me sentindo um tanto culpada de ele ter que fazer algo por mim. “Acho que ficou forte”. Nunca gostei de café forte, nem fraco demais, o que era estranho para uma pessoa que navega entre extremos, mas fazia total sentido para quem vivia cada dia ao lado de alguém como se fosse o último. Coloquei açúcar no que não parecia ser o café que eu gostaria e fechei os olhos. O primeiro gole resumiu o que eu mais temia: naquele domingo à tarde, que para a gente ainda era uma manhã despretensiosa, eu tomei o melhor café da minha vida.

Os desaforos que eu levei para casa

Você pode ler este post ao som de Bad Blood, Taylor Swift

Quem nunca ouviu um “não dê este gostinho para Fulano de Tal” e teve que engolir o choro para que um agressor não pudesse ver o sofrimento que causou que atire a primeira pedra. “O que vem de baixo não me atinge” também é uma versão clássica do orgulho de quem é inabalável. Você estava lá, estrupiado, depois de sofrer bullying na escola ou de engolir o sapo mais amargo no trabalho, mas esboça aquele sorriso amarelo de “tá tudo bem, gente“. Você é forte, eles disseram.

Cresci trazendo desaforo para casa para não arrumar briga na escola. Tendo que concordar com absolutamente tudo que os meus pais diziam, fazendo sentido para a minha realidade ou não. Quando comecei a dirigir, a instrução era: se bater o carro, já desce falando que vai pagar. Até que um dia bateram em mim e eu disse que ia pagar, cheguei em casa, não entendi o que tinha acontecido ou porque tinha feito tal promessa. Mulher, ainda, não podia desmoronar, não podia dar de louca e, muito menos, ter razão.

Uma outra vez, eu sofri um abuso e a pessoa me mandou mensagem no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Eu, completamente em choque — e, mais uma vez, tentando entender o que tinha acontecido — ativei a ferramenta que a gente mais gosta de usar no mundo da tecnologia: bloquear. Ergui a cabeça, sequei a lágrima e segui “forte”, como as pessoas queriam me ver.

Fui me tornando uma muralha, que pedia desculpas o tempo todo, mesmo quando eu era quem deveria desculpar. Que não dava o prazer para um filho da p*ta ver que me fez sofrer e que fazia piada da própria desgraça. O muro ficou grande demais e me cercou com toda a bagagem acumulada de anos sem dar o gosto ou o prazer ou o que quer que fosse para todas as pessoas que me afetaram negativamente ao longo da vida. O muro me enclausurou e todo o feedback que eu tinha recebido para ser alguém melhor, mas que eu não podia dar para pessoas relativamente ruins, caiu por terra.

Esquece essa história, Ciclano não vale a pena“. Foi então que eu entendi que não só o Ciclano não valia apena, quanto amargurar um sentimento ruim dentro de mim também não. Não vou esquecer, não é fácil assim. E sabe quem também não vai esquecer? O bêbado que bateu no meu carro, o embuste que me tratou como objeto, a “amiga” que achava que eu era obrigada a me afundar junto com ela, o psicopata que tentou manipular minha mente a seu favor e o professor da quinta série que me fez chorar na frente da sala toda porque ele simplesmente podia.

Há uma ponte que divide muito bem a exposição de uma ferida e a tentativa de tapar um buraco de bala com um band-aid. Chega uma hora que a voz se esvai, a lágrima rola e não é mais no meio da noite, é para uma plateia inteira. Isso não nos torna fracos, mas humanos. Ajuda a escoar o ódio que temos o direito de sentir e nos previne de que ele vire um rancor que pode nos destruir.

Ainda tem muito tijolo para cair de tudo que me cerca, mas posso dizer que me sinto mais leve, que consigo respirar. O que cada pessoa faz com a consequência de seus atos não me diz respeito, mas é importante que quem faz mal saiba que nem tudo é sobre ele. Que não temos que fingir que está tudo bem para provar algo ou fazer com que a pessoa que nos machucou vire o jogo para se sentir melhor. Perdoar é importante, mas se permitir sentir, lidar com a dor e aprender as lições que nos são dadas ao longo do caminho são atitudes tão importantes quanto. Não adianta aliviar a consciência do outro enquanto a sua própria te mata. Lentamente.

Credito da foto: Revista Vogue

O jovem moderno que queria estar em forma

Você pode ler este post ao som de qualquer música que faça você querer se mexer.

Nunca gostei de esportes. Não acredito que tenha sido por falta de incentivo familiar, visto que minha mãe é a pessoa mais fisicamente ativa que eu conheço e meu irmão era sempre visto com uma bola. Acontece que a vida inteira fui desastrada e me senti desengonçada com meu próprio corpo. Quer ver um show de horrores peça para eu dançar — o que provavelmente vou fazer mesmo assim para entreter pessoas.

Eu me lembro da época da escola, o professor de educação física dividia os esportes por bimestre e a vez do voleibol era a única que me fazia parar de cabular aula para comer as amoras dos pés que ficavam em volta da quadra. Algo na lógica do jogo me chamava a atenção: o posicionamento dos jogadores que sempre mudava, a bola no alto, os movimentos. Eu, que nem sequer acompanho os jogos do Brasil na Copa do Mundo, me pegava assistindo às partidas de vôlei nas olimpíadas, encantada.

Como todo jovem da modernidade que quer estar minimamente em forma, passei o começo da minha vida adulta pagando academias e falhando miseravelmente na hora mais importante, que era a de ir até lá e treinar.  Constantemente com a sensação de estar fazendo algo errado que pudesse me levar a uma paralisia das pernas (ou pior), eu ficava observando as pessoas e me perguntando por que raios eu estava ali. Sabia, no fundo, que nunca teria um corpo de paniquete ou de angel da Victoria’s Secrets.

Decidi que tinha que ser mais forte que o Chandler de Friends (seriously, man, you gotta quit the gym) e quebrar meu contrato com a SmartFit de uma vez por todas. A moça da recepção fez todo o processo em menos de cinco minutos com o olhar de quem sabia que eu voltaria em alguns meses, vestindo alguns números a mais. Contudo, meu plano para estar em forma acabara de começar. Decidi praticar o único esporte que gostei.

Óbvio que levei mais uns dois meses de ensaio para começar as aulas, que fiquei doente e desanimada, direcionada à aceitação da minha condição sedentária. Até que em uma bela manhã, ao pegar minha cachorra de dezesseis quilos no colo e passar uma semana sem conseguir me virar na cama à noite porque minha lombar me matava, decidi que era a hora de literalmente me mexer.

Pisquei e estava em quadra, passando a bola para uma outra mulher iniciante. “Vamos imitando a galera“, ela dizia conforme os passes mudavam. Na segunda manchete, achei que meus braços fossem cair e fiquei aliviada de estar praticando com alguém que sentia o mesmo. Com as redes já posicionadas, o professor do clube esportivo que ficava em Pinheiros designou quem ia para cada time e eu comecei a lembrar de como as pessoas podiam ser competitivas nos esportes.

Muito de um jogo de voleibol se parece com a vida adulta: tem aquela pessoa que vai, genuinamente, te ajudar. Tem aquela que pensa no time como um todo e ou você vai ser ajudada ou levada pelo próprio jogo, sem muitas escolhas. Qualquer desvio de atenção pode resultar em uma bolada na cara ou alguém caindo por cima de você e a proatividade se torna um meio de sobrevivência obrigatório. Pelo time, ou seja lá o que for, tem sempre aquele dedicado que vai se jogar no chão e se estrupiar inteiro, enquanto o outro ainda está perdido sem saber muito o que fazer com a bola que vem vindo em sua direção. É uma selva, mas é a nossa vida.

Voltei para casa refletindo muito sobre como aquela aula representava milhares de outras coisas, uma delas era não desistir quando algo fica difícil. É cair e levantar. Secar o sangue e a lágrima e continuar correndo. Conviver com a dor e lembrar do porque ela está ali. Comer um pedaço imenso de bolo e conseguir seguir com a dieta mesmo assim, afinal, uma falha não é o todo. Não levar tudo para o pessoal, nem todo mundo sabe o que fala. Entender o calor do momento e saber conviver consigo mesmo quando tudo ficar frio. Desapegar do conformismo e passar a bola pra frente quando necessário.

Não sei quanto tempo minha animação vai durar e confesso que pensei em nunca mais voltar àquela quadra quando o primeiro cara foi grosso comigo. Surpreendentemente, enxerguei aquela experiência com lentes que nem imaginava que existissem. Se ficarei em forma, ou não, aí já é uma história diferente, mas sei que há uma grande chance de me fortalecer como pessoa — e encontrar essa oportunidade nos momentos mais improváveis não tem preço.

Crédito da imagem: Tribuna do Norte

 

A manhã seguinte

Você pode ler este post ao som de Riptide, Vance Joy

Podia-se ouvir o cantarolar de um bar inteiro animado com ACDC. O vocalista da banda cover de rock clássico destoava de todo o resto: uma camisa branca fazia par com um cachecol que parecia ser demais para um local fechado e nada frio. E tinha o sapatênis, aquele que o Alex* fez questão de associar com alguma piada interna que tinha com seus amigos. O riso dele se misturava bem com os acordes de guitarra.

Já havia perdido as contas de quantas cervejas tinha tomado ou de quantas conversas profundas tínhamos tido, enquanto ele insistia em questionar minha vontade de ter um banjo. Fazia tempo que não encontrava alguém com quem dividisse as mesmas paixões, mesmo nossas reflexões entrando em algum impasse. E essa era uma das maiores razões de eu estar no meio daquele barulho, depois de uma semana barulhenta o suficiente.

Duas garrafas vazias se encontraram no balcão do bar, o canto aparentemente mais tranquilo do segundo andar. Nossos lábios fizeram um caminho parecido e o redor já não girava mais. Bon Jovi foi testemunha de que a sintonia ia muito mais além de duas pessoas envolvidas pela música. Livin’ on a prayer tinha acabado de ganhar um novo contexto. Talvez aquele homem nem tão desconhecido também.

Então eu pisquei e tudo tinha mudado. O papo, o tom de voz, os pensamentos e o cenário. A música que tocava ao fundo havia sido cuidadosamente escolhida quando criei a playlist, alguns dias antes. O volume era adequado à hora da madrugada e a sensação de não saber o que fazer havia se dissipado na circunstância. Meu olhar dançava pelo cômodo, curioso pelos livros, discos e instrumentos. Dançava pelo dele, contornando a atmosfera leve.

Acordei e a luz que atravessava a cortina denunciava o dia. Ouvia uma respiração profunda que se confundia com a minha. A imagem era crua, fruto de uma fantasia prematura que quebrava um ciclo maior que qualquer incerteza. Eu não sabia onde estava, mesmo sabendo. Havia me deixado levar por tanto: a expectativa, o álcool, a conversa desprendida, as mãos dele dançando pelo meu corpo.

Por mais orgânico que o encontro tenha sido, a claridade trazia reflexões que não previra. Não necessariamente naquela manhã, mas cada vez que pensava nele. É engraçado como nos conectamos sem saber direito quem está próximo. Criamos um sentimento difícil de decifrar e que pode mudar a cada segundo, escorrer entre os dedos, perfurando versos. Algumas pessoas são canções que não podem ser lidas se não ouvidas previamente, por mais precisas que sejam suas composições. Alex era uma delas.

Comecei a trocar as palavras, enquanto ele media as suas. Parece que já sei tudo sobre quem ele é, mas sei tão pouco. Talvez ele saiba o suficiente do que deixei transparecer nas histórias que nem me lembro de ter contado. Talvez aquela conversa em que eu já não falava nada que fizesse sentido até adormecer seja o que ficou na manhã seguinte.

Cada vez que a gente se despede parece a primeira — e eu nunca sei se será a última. Mesmo compreendendo as claves, brincando entre melodias, eu me sinto fora do tom, perdida no tempo. Eu, que sempre viajei pela profundidade, tenho encontrado na superfície as notas mais difíceis de serem alcançadas.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem.

Crédito da imagem: flickr/Jackie Matthews

 

A teoria do prato giratório

Você pode ler este post ao som de Don’t you want me, The Human League

Éramos em três mulheres, de idades diferentes dentro de um carro no trânsito da Lapa, em São Paulo. De repente, uma crise de ansiedade se transforma em uma de riso, ecoando dentre teorias, conselhos e histórias parecidas. Não diria toda mulher, mas acredito que toda pessoa já se sentiu insegura em se relacionar na era tecnológica — ou pelo menos tentar. Será que mando mensagem? Quem foi que chamou o outro para sair da última vez? O assunto morreu, o que eu falo agora? são algumas perguntas que a gente se pega fazendo em um fim de tarde, enquanto tentamos sobreviver mais um dia caótico do mundo moderno.

Com tantos meios comunicação, nossa sociedade se calou. Descobrimos, da forma mais amarga, a diferença entre conversar com alguém ou apenas responder uma mensagem visualizada. E nós agradecemos a resposta, porque o silêncio também é uma forma de falar e ele causa ainda mais desconforto em quem tem interesse e não tem medo de demonstrá-lo. Não é à toa que estamos, todos, narrando nossos próprios enredos e tirando qualquer conclusão sem ter a chance de entender e de ser entendido.

Patricia* aproveitou o farol fechado da Avenida dos Bandeirantes e desceu. A conversa continuou: fala de você, passei a bola para a próxima odisseia preencher os últimos quinze minutos até o destino final. Tabatha* encara o para-brisa: ele fala que quer sair, mas nunca está disponível. É como se estivesse sempre ali, sem estar. Eu continuo, em pensamento: esperando o momento mais conveniente para ele, talvez. Ela, então, fala algo sobre o pratinho girando no meio dessa espera. O famoso não f*de e nem sai de cima. As pessoas não cortam laços e, ao mesmo tempo, querem manter vivas as expectativas do outro para caso ela ainda tenha a passagem livre em algum espaço-tempo mais favorável. O prato continua girando, enquanto nada vai acontecendo.

Na realidade, a teoria do prato giratório não está diretamente relacionada às novas tecnologias — ela simplesmente foi enaltecida com elas e facilitou todo o processo. O ser humano constrói o prato, cria todo o movimento e se cansa: mas é egocêntrico o suficiente para largar o osso. A maioria das pessoas não tem a capacidade de dizer que a festa acabou para que paremos de dançar. Apagam-se as luzes e fica-se a dica. São entrelinhas para serem lidas na escuridão, enquanto estamos agarrados no prato, nos segurando para não cair. Girando e girando – e esperando também.

Se a cada dia aprendemos novas formas de conhecer pessoas e criar novos vínculos, precisamos descobrir, mais do que nunca, como identificar nossas deixas. A música rolando em um volume menos animado pode ser nossa chance de nos aquietarmos. Pegar nosso prato com mãos firmes e encontrar um lugar mais seguro para a movimentação da nossa própria energia. Ouvimos tanto que tempo é valioso, mas nos esquecemos que a energia é o que nos move. E dançar sem uma plateia digna da coreografia parece ser o maior erro que cometemos.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das personagens.

Crédito da imagem:  flickr/Noelle Buske

 

 

Feliz dia!

Você pode ler este post ao som de Ruins, James Morrison

Relógio desperta às sete horas da manhã e o frio agita a espinha. Estou com febre e minha garganta dói. Alguns e-mails para responder, mensagens perdidas no celular, o cheiro do café invadindo o quarto. A folha do calendário aponta doze de junho e eu estava esquecendo de algo.

Pego o celular o confirmo se os cupcakes vão ficar prontos a tempo. Como eu sabia que ele gostava: cenoura com cobertura de chocolate e corações de pasta americana. O livro ilustrado que escrevi com as dez coisas que eu amava no Gustavo* já estava finalizado. Será que eu escrevo uma carta?

Pego o termômetro e me assusto quando vejo outro número: trinta e nove é muita coisa. Às nove, eu tenho uma reunião com outras milhões de datas mais importantes que doze de junho. O que aconteceu comigo? Começo a trabalhar, agradeço que estou em casa e que tem dipirona. Sinto calor, mas sigo respondendo e-mails.

Brigamos o caminho inteiro até em casa, tudo era motivo. Havia complementado a camiseta dos Simpsons que ele nunca usaria com um porta-retrato nosso (sabia que era um clichê, mas nessa ocasião o que não era?). Ele amava os Simpsons, mas acho que odiou a camiseta — não usava nem para fazer uma média. Tinha chocolates, também, e o meu presente era sempre algo que ele comprava de uma última hora sob a desculpa de que eu era uma pessoa difícil de se presentear. Eu tinha tudo, segundo ele.

A reunião acabou e minha cabeça latejava. Decidi ir ao médico e quando fui tirar o carro da garagem, me deparo com um buraco de frente ao meu portão. Vários homens trabalhando. Vocês me dão licença? Um deles saiu de dentro do buraco e preencheu o espaço com a terra. Saí e meu date era com o trânsito na Marginal Pinheiros. Eu só queria deitar um pouco, mas segui caminho.

Três meses antes, nós terminamos pela milésima vez. Agora é definitivo. Passa uma semana, duas e lá estávamos nós, trocando juras e fazendo promessas que não cumpriríamos. O dia doze, mais uma vez, caía no meio da semana. Eu avisei que estava subindo para o apartamento e ele me recebeu de porta aberta, segurando uma rosa e um chocolate, meu olhar marejando. Talvez estivéssemos abrindo espaços ou tapando os buracos que a gente mesmo tinha se enfiado. Vocês me dão licença?, a razão perguntava.

Voltei para casa com três caixas de remédio, uma lata de brigadeiro pronto e pilhas de trabalho me esperando. O sol estala lá fora, mas ainda sinto o frio perfurando a pele. Os casais preenchem minha timeline com fotos e textos cheios de amor. Lendo um a um e distribuindo likes, eu me sinto em paz. A mesma paz de quem amou construindo castelos e saindo de escombros. Posso dizer que não sinto raiva desse sentimento alheio que está no ar, tampouco tenho medo dele. Eu saí, mas deixei a porta aberta.

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.

Crédito da foto: flicker/johanna

Quem diria

Você pode ler este post ao som de Quem diria, Zimbra feat Dinho Ouro Preto

Enquanto rolava o feed do Instagram, ouvia os barulhinhos do gás da água tônica em contato com o limão e a minha solidão. Eu sabia que minha mãe e a cachorra de estimação estavam logo ali, no andar de cima da casa. Sabia, também, que a distância entre nós era bem maior que qualquer ser humano pudesse medir.

Eu me sentia sozinha por dentro. Como se meus pensamentos, dores e angústias fossem companhias passageiras, caso eu não conseguisse lidar com elas. E eu, que sempre quis fugir e preencher todo e qualquer vazio com existências alheias e pessoas cheias de boas intenções, quis abraçá-las como minhas de novo. Quis o silêncio do lado de fora, mas também a gritaria de me apropriar de mim mesma.

A playlist ia rolando e me trazendo as melhores e as piores memórias possíveis. A parte interessante e assustadora de querer se encontrar em si mesmo é justamente essa: ter momentos de euforia como se o mundo coubesse na palma da sua mão e, ao mesmo tempo, se sentir tão pequeno e querer caber na mão de uma outra pessoa. Se aproximar do que ela sente e guardar tudo o que tem. Olhar mais para fora que para dentro. Olhar para lugar nenhum

Os três cubos de gelo que encontrei na geladeira haviam derretido e o suor do copo gelado feito uma poça no chão. Lavei a louça da pipoca, juntei os livros do francês, coloquei um episódio de Grey’s Anatomy pra rodar. Chorei por uma história que nem sequer era minha, quis chorar pelo mundo. Nunca vou entender qual o tabu que as pessoas colocam em chorar, pensei.

Tinha a insônia de alguém que dormira em um momento errado do dia. Tenho a cabeça no lugar de quem nunca soube o que pensar. Tenho a chance de renascer cada vez penso em sumir. Tenho a sorte de ainda poder amar a mim mesma antes de qualquer coisa. Tenho tempo de recuperar o tempo que quase escorreu pelos dedos, feito o gelo derretido do drink que foi metade para o ralo. Eu tenho tudo.

Quando eu me olho no espelho, vejo que tenho absolutamente tudo.

 

Crédito da imagem: flickr/gooseroxx

Bonitinho, vegano e ordinário

Você pode ler este post ao som Wasted time, Skid Row

“Desculpa, mas eu não trabalho para o pornhub“: tá aí uma frase que eu nunca achei que diria na vida.

Uma coisa muito engraçada sobre apps de relacionamento é perceber que, mesmo dentro da nossa casa, enrolada num cobertor e segurando uma xícara de café, estamos submetidos a conhecer as pessoas muito peculiares.

Se misturarmos álcool e tédio, é possível que escolheremos as nossas melhores fotos, criaremos a descrição mais criativa que qualquer propaganda de marketing e nos juntaremos às milhares de pessoas em busca de um corpo quente nesse frio nos tinders da vida. Julgar essas pessoas não é uma opção, pois todo mundo vai ter sua vez um dia.

Travis* era um cara bonito meio loiro, meio ruivo que tinha uma banda e muitas fotos legais. Enquanto ouvia rock pesadão, cozinhava seu próprio macarrão de abobrinha. Sim, um rockeiro, músico, bonito e vegano era tudo o que eu precisava naquele momento.

Na descrição, ele dizia que procurava companhia para ver filmes de terror que fossem protegê-lo – a desculpa mais safada e batida que alguém poderia utilizar como artimanha de sedução. Ele tinha me ganhado ali, apesar do clichê. Demos match e, mal sabia eu, que ele seria com o capeta.

Meia hora conversando e eu recebo uma localização por mensagem: “estou indo tomar banho e deixei a porta aberta”. Gente. Isso era para mim? O que ele quis dizer? Que era para eu ir para a casa dele sabendo que a taxa de feminicídio aumentou 76% no primeiro trimestre deste ano, no Brasil? Estava eu muito louca? Essas perguntas nunca foram respondidas.

Eu fui desconversando, já sabendo que o que ele queria era sexo casual (e tudo bem). A maioria das pessoas que já conheci nesses aplicativos quer isso mesmo e são muito claras com seus objetivos. O que começou a ser curioso foram os esquivos de todos os convites para bares, cafés e qualquer outro local público da cidade.

“Me manda uma foto sua?” Foto de quê? Uma selfie? Uma foto com a Gertrudes? Uma foto minha trabalhando? Lendo um livro? Ah, tá! Acho que ele quer um nude. E me conhecer? Será que ele queria?

Somando minha paciência e a esperança de tornar aquela experiência em algo produtivo como um escudo e esse texto que vos escrevo, deixei a situação ir ainda mais longe. Foram muitos pedidos de fotos e de visitas no meio da noite, sem qualquer pergunta sobre quem eu era. Talvez eu fosse uma psicopata também e ele nem sequer deve ter parado para pensar nisso.

Mesmo com todas as expectativas alinhadas, ele não parecia entender meu ponto, mas eu entendi o dele perfeitamente: temos, agora, uma outra classe de interesses em aplicativos de relacionamento. Não é sair com a pessoa e transar no primeiro encontro, nem mesmo ir a mais de um encontro e transar depois. É não sair e ter um “serviço” que vai além dos sites pornôs, como a prostituição gratuita a domicílio.

Com o Travis, eu descobri que não somos mais pessoas de carne e osso ou mulheres dignas de uma conversa (e nem me venha com esse papo de que a gente busca por relacionamento sério, pois não é o caso), somos gado. Estamos disponíveis e parecemos não ter relações bem estabelecidos na vida real para não precisarmos sair no meio da noite e satisfazer o desejo sexual de um desconhecido. Aprendi que, mesmo que a gente quisesse sair no meio da noite e entrar na casa de um estranho sem o menor compromisso, estaríamos correndo o risco de perder a própria vida. Aprendi que não valemos um copo americano de cerveja. Travis fez a conta de quanto ele gastaria em um date sem ter a certeza de que se daria bem no final.

O medo, o espanto e a reflexão me fizeram crer que dignidade é uma questão que vai muito além de se resguardar física e emocionalmente, mas entender que ainda precisamos do mínimo de profundidade até para relacionamentos superficiais. E, infelizmente, as pessoas se assustam com isso. Dizer que tem interesse, compartilhar um litrão de cerveja barata e se propor a conhecer um pouco do outro não quer dizer que não queremos o mesmo prazer descompromissado. No fim, a gente só quer mesmo se certificar de que a energia no entorno não nos colocará em alguma posição desconfortável e traumática, afinal, da mistura do álcool com o tédio sai a carência do corpo quente no frio.

E ele poderia ter sido o seu, Travis.

*Nome fictício para preservar a personagem (mesmo que ela não mereça).

Crédito da imagem: flickr/Marian Alonso