Acredite: se apaixonar já foi bom

Você pode ler este post ao som de In your atmosphere, John Mayer.

É o seguinte, meninas: nós vamos voltar para o bar e encontrar o boy da Grazi*, depois vamos para casa nos arrumar e ir para o Saravá. Eu já estava arrependida de ter dito que tudo bem fazer dois rolês em um dia enquanto carregava uma gripe e uma semana intensa nas costas — e a Mariana* mal tinha terminado a frase. Descíamos uma rua desconhecida, de um bairro sorocabano também desconhecido ao passo que o efeito do álcool e dos analgésicos ia passando.

O lugar tinha diminuído em meia-hora em que estivemos fora, o número de pessoas aumentado e a qualidade da música melhorado consideravelmente. A energia do lugar estava mais vibrante, gente fantasiada para todo lado — como um bom carnaval — olhares em busca de outros olhares, sorrisos encontrando outros sorrisos. Não demorou muito para presenciarmos os beijos despretenciosamente carnavalescos mais esperados da noite. E continuamos dançando, rindo, álcool indo embora.

Uma coisa muito interessante sobre esses grandes eventos é a rapidez das coisas. Você está plena tomando sua cerveja quente ou checando redes sociais. No segundo seguinte tem um cara te agarrando. E você não vê uma seção de eventos que faça sentido, o nome dele eu saberia bem depois, pois ao som de Netinho tudo fica muito confuso. E tem aquele papo pós agarramento desconfortante em que ele comenta que aquela música marcou muito a época dele e fala que você é nova demais para saber. Tudo isso em slow motion e você se pergunta de onde aquele cara saiu. É carvanal, Joy!, elas disseram.

E era carnaval. E o Eduardo* (era esse o nome dele!) me lembrava algum ator da Globo, além de usar um perfume gostoso. E estava tudo bem ou estaria tudo bem em outras circunstâncias. Tinha algo me incomodando e eu só fui descobrir o que era no dia seguinte. GPS ‘tava ok. Playlist ok. Dinheiro do pedágio ok. Cabeça not so ok.

Droga.

Eu sabia o que era.

E lá íamos nós de novo, pela estrada metafórica mais agonizante que a volta para casa em pleno feriado. O problema não era quem eu tinha beijado, mas quem eu queria ter beijado todos aqueles dias. Quem não saía da minha cabeça e fazia meu coração dar tranquinhos toda vez que uma mensagem nova chegava. O lance que eu não tinha a menor ideia do que iria virar e até dois dias atrás estava tudo bem não saber.

Em algum lugar do tempo, distante, bem pequeno, houve uma época em que estar apaixonado por alguém era motivo de alegria, de liberdade, de se sentir vivo. E, por incrível que pareça, eu tento arduamente manter esse pensamento (a música Someone New do Hozier me descreve bem nessa esfera). Pessoalmente, não tem nada mais altruísta e inspirador que enxergar além do que se vê. Ver tudo transparente no meio de um monte de nuvem cinza. Eu sei que não faz sentido algum, mas não é para fazer, certo? Nunca foi.

A vida adulta traz consigo uma casca. Nossas cicatrizes têm nos tornado pessoas receosas, ansiosas e amargas. Não existe mais pensamento positivo em torno daquilo que — ou de quem — se quer. Nossas aspirações amorosas já vem com data de validade e perdemos toda a magia da incerteza porque não nos damos mais o tempo de seguir em frente com algo mesmo assim. Se isso não for triste, eu já nem sei mais o que é triste.

De quilômetro em quilômetro, a ansiedade aumentava. Stevie Wonder, The Cure, Pearl Jam. Nada aquietava a cabeça. Eu tinha sido pega pelo bichinho que deixa o frio na barriga congelar o corpo inteiro até pedirmos arrego, pedirmos para sair. Eu não queria mais sentir aquilo tudo. Queria que aquela boca aleatória não tivesse me trago o gosto amargo desse medo que ia me fazer ouvir John Mayer por uma semana seguida.

Se apaixonar já foi legal, gente. Eu deveria ter uns doze anos de idade quando isso aconteceu, mas é verdade: já foi muito bom.

Ah, as resoluções de ano novo!

Escrevo este texto enquanto encaro uma pia repleta de louças sujas exclusivamente minha. O prato, com a comida fresquinha e saudável, descansa sobre a mesa enquanto eu tento decidir o que fazer primeiro. Foram três horas cortando vegetais, chorando com a cebola e correndo contra o tempo para nada queimar, já pensando que a foto no Instagram tinha que ficar bonitinha para mostrar o quão prendada eu comecei dois mil e vinte.

Cozinhar é uma das promessas que eu fiz na virada desse ano, o que já era um plano adiado por muito tempo e me assombrava toda vez que a fumacinha do miojo recém pronto me entorpecia. Não era possível que eu, no auge dos meus vinte e sete anos, não saberia a medida de água para o arroz cozinhar sem virar uma pasta. Além disso, o fato de eu ser vegetariana me cobraria certa criatividade com as receitas e os temperos, tornando o desafio maior.

Ah, se todas as promessas de ano novo fossem fáceis assim, não é mesmo? Para cada medida de arroz, temos duas de água e é só caprichar no tempero e cuidar do sal que tudo se encaminha. A questão, no entanto, não é ter metas, mas parar de querer dobrá-las antes da hora – se é que me entendem – e administrá-las de uma forma que não virem mais uma lista de meras frustrações. Nós precisamos cuidar para que os objetivos que tanto nos animamos em traçar não voltem sempre para o mesmo lugar: o papel.

O mais curioso no comportamento humano acerca das new year’s resolutions é perceber que muito se quer e pouco se planeja. Por exemplo: por muitos anos eu desejei ler e escrever mais. É só abrir qualquer fim de agenda minha que você vai encontrar anotações do tipo “ler x livros por mês” ou “postar y textos por semana no blog abandonado”. Contudo, eu nunca me perguntei sobre qual momento do meu dia eu faria aquelas coisas e, consequentemente, fui sendo arrastada pela realidade me dizendo que se eu não delimitar um caminho realista não tem linha de chegada me esperando.

Nossas vidas são construídas de (re)começos: são primeiros de janeiro, primeiras segundas do ano e a tão esperada própria segunda-feira, ali, a cada sete dias sem falhar, de bracinhos cruzados vendo você por seu tênis de academia mais uma vez na mochila. São as alfarrobas que você desistiu de comer no lugar do chocolate e que sempre retornam à cestinha da loja de produtos naturais. O importante é não desistir, eles disseram.

Não há problema nenhum em cair e levantar, não me levem a mal, mas deve haver algum jeito de amortecer essa queda e encontrar em nós mesmos a fonte dos tropeços. Seria o cansaço? A falta de estabelecer quais são as nossas prioridades? Entender qual a importância de tudo o que a gente se propõe a fazer? E pergunto ainda: para onde vai a culpa se eu quiser desistir de algum item dessa lista tão tradicional que insiste em desgraçar nossas cabeças todo santo começo e fim de ano?

Se vamos deslanchar profissionalmente, começar aquela pós-graduação tão esperada ou arrumar nossas camas todos os dias, eu não sei. O que eu espero, de verdade, é que toda essa energia que aparece magicamente nessa época seja combustível para nos levar até o fim da estrada – e que haja a sensação de dever cumprido por lá.

Os desaforos que eu levei para casa

Você pode ler este post ao som de Bad Blood, Taylor Swift

Quem nunca ouviu um “não dê este gostinho para Fulano de Tal” e teve que engolir o choro para que um agressor não pudesse ver o sofrimento que causou que atire a primeira pedra. “O que vem de baixo não me atinge” também é uma versão clássica do orgulho de quem é inabalável. Você estava lá, estrupiado, depois de sofrer bullying na escola ou de engolir o sapo mais amargo no trabalho, mas esboça aquele sorriso amarelo de “tá tudo bem, gente“. Você é forte, eles disseram.

Cresci trazendo desaforo para casa para não arrumar briga na escola. Tendo que concordar com absolutamente tudo que os meus pais diziam, fazendo sentido para a minha realidade ou não. Quando comecei a dirigir, a instrução era: se bater o carro, já desce falando que vai pagar. Até que um dia bateram em mim e eu disse que ia pagar, cheguei em casa, não entendi o que tinha acontecido ou porque tinha feito tal promessa. Mulher, ainda, não podia desmoronar, não podia dar de louca e, muito menos, ter razão.

Uma outra vez, eu sofri um abuso e a pessoa me mandou mensagem no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Eu, completamente em choque — e, mais uma vez, tentando entender o que tinha acontecido — ativei a ferramenta que a gente mais gosta de usar no mundo da tecnologia: bloquear. Ergui a cabeça, sequei a lágrima e segui “forte”, como as pessoas queriam me ver.

Fui me tornando uma muralha, que pedia desculpas o tempo todo, mesmo quando eu era quem deveria desculpar. Que não dava o prazer para um filho da p*ta ver que me fez sofrer e que fazia piada da própria desgraça. O muro ficou grande demais e me cercou com toda a bagagem acumulada de anos sem dar o gosto ou o prazer ou o que quer que fosse para todas as pessoas que me afetaram negativamente ao longo da vida. O muro me enclausurou e todo o feedback que eu tinha recebido para ser alguém melhor, mas que eu não podia dar para pessoas relativamente ruins, caiu por terra.

Esquece essa história, Ciclano não vale a pena“. Foi então que eu entendi que não só o Ciclano não valia apena, quanto amargurar um sentimento ruim dentro de mim também não. Não vou esquecer, não é fácil assim. E sabe quem também não vai esquecer? O bêbado que bateu no meu carro, o embuste que me tratou como objeto, a “amiga” que achava que eu era obrigada a me afundar junto com ela, o psicopata que tentou manipular minha mente a seu favor e o professor da quinta série que me fez chorar na frente da sala toda porque ele simplesmente podia.

Há uma ponte que divide muito bem a exposição de uma ferida e a tentativa de tapar um buraco de bala com um band-aid. Chega uma hora que a voz se esvai, a lágrima rola e não é mais no meio da noite, é para uma plateia inteira. Isso não nos torna fracos, mas humanos. Ajuda a escoar o ódio que temos o direito de sentir e nos previne de que ele vire um rancor que pode nos destruir.

Ainda tem muito tijolo para cair de tudo que me cerca, mas posso dizer que me sinto mais leve, que consigo respirar. O que cada pessoa faz com a consequência de seus atos não me diz respeito, mas é importante que quem faz mal saiba que nem tudo é sobre ele. Que não temos que fingir que está tudo bem para provar algo ou fazer com que a pessoa que nos machucou vire o jogo para se sentir melhor. Perdoar é importante, mas se permitir sentir, lidar com a dor e aprender as lições que nos são dadas ao longo do caminho são atitudes tão importantes quanto. Não adianta aliviar a consciência do outro enquanto a sua própria te mata. Lentamente.

Credito da foto: Revista Vogue