De uma faixa a outra

Você pode ler este post ao som de Cry baby, Demi Lovato

Ano passado estava na Livraria Cultura procurando  por um livro infantil para minha sobrinha (de coração) que comemorava sete anos. Perambulando entre os corredores e estantes, dei de cara com uns CDs de POP em promoção.

Sei que a ideia de comprar CD pode parecer a coisa mais estúpida nos tempos modernos, ainda mais porque somos bombardeados de opções tecnológicas para ouvir nossas músicas da forma mais fácil possível. Como sou aquelas que revira o encarte do avesso, passa os olhos pelas letras e já se identifica com os versos mesmo antes de ouvir a própria música, vi o momento como parte da experiência musical.

Já que era o dia de comprar presentes, me dei o novo álbum da Demi Lovato (Tell me you love me Deluxe Edition) e fui ouvindo as duas músicas que conhecia no repeat até chegar ao buffet da festa infantil numa sexta-feira à tarde. Sim: eu conhecia duas faixas e fiquei navegando entre elas até essa semana, quase um ano depois.

Acontece que, nesse meio tempo, a vida tem tomado rumos que eu não esperava: desafios profissionais, grandes epifanias, laços cortados trouxeram a vontade de explorar as novas possibilidades que a mudança de itinerário me trouxera. Tudo isso tem me feito ver que a vida é uma história contada por amarras, como se compusessem um álbum que um dia estará em promoção. Então, hoje de manhã, ouvi todas as faixas do CD da Demi e percebi que estava cansada das batidas que haviam virado rotina: senti a necessidade de me entregar às melodias “novas”, me identificar com os outros enredos, entender o que ela estava contando como um todo.

Nós tendemos a insistir em hábitos e relacionamentos que entram em um ciclo sem nos levar a lugar algum. Decoramos a letra, atingimos a nota mais alta depois de tanta prática até que percebemos que, ao redor, há muito mais que dois singles que já tocavam na rádio muito antes de adquirirmos o famigerado CD. Nós insistimos na mesmice, mas não por falta de opção ou perspectiva, mas por medo de nos encantarmos e encararmos o novo. O desconhecido que causa o frio na barriga e a letra que sai errada dos lábios quando cantada pela primeira podem ser nosso pior embaraço, refletindo tudo ao redor.

Se pararmos para pensar, as duas músicas permanecerão ali, no meio das outras, mas talvez sejam elas que serão puladas por não caberem no nosso momento de total libertação. Elas continuarão sendo a parte do todo. Invadindo nossa cabeça para ficar nos momentos mais inoportunos. Serão lembradas com carinho quando alguém nos perguntar, num futuro distante, quais eram as músicas mais tocadas na nossa época ou por quem nosso coração batia mais forte.

E, então, da próxima vez que encararmos nosso rádio, olharemos também para dentro de nós. Quais serão os dois caminhos que nos farão ouvir nossa voz cantarolar todos os versos?

A parte será todo – e nos seremos, de uma vez por todas, inteiros.

 

Crédito da imagem: flickr

As estrelas de plástico

Você pode ler este post ao som de Beautiful, Christina Aguilera

Mesmo com a escada, eu não alcançava o teto — ou pelo menos tinha medo de esticar meu corpo até onde precisasse. Eu queria que estrelas brilhassem sobre mim enquanto dormia, mesmo que artificialmente. Era o máximo de luz próxima da realidade que conseguiria morando em uma cidade grande.

Talvez eu nunca tivesse imaginado a complexidade que aquele momento me traria. Não só pela necessidade de ter o sono assistido por elementos de material tão frágil, mas pelo que viria no processo.

Meu irmão, claramente mais alto que eu, alinhou, uma a uma, as estrelas de plástico rentes ao teto. Eram dezenas e, entre elas, duas fugiriam do formato padrão. Ao final da saga interestelar das quatro paredes, ele me perguntou qual era o problema das estrelas que ficaram de fora das minhas constelações. Estão com defeito, respondi.

Elas vão brilhar do mesmo jeito, ele foi direto.

Pensei em quantas vezes somos a estrela deixada de lado. Que, à luz do dia, teriam todas as marcas expostas e, no escuro (quando requisitadas), seriam exatamente o que alguém precisa. No fim, todos nós brilharíamos na simplicidade do nosso próprio sonho — ou do sonho de quem nos vê antes de adormecer.

Ora somos carne e osso, ora somos plástico. Que se molda conforme a vida acontece e ascende quando a hora chega. Acesas, no escuro de quem nos vê. Deformadas aos olhos de quem julga a intensidade pela forma — e não pela essência.

 

Crédito da imagem: flickr/Catherine Segurson