Acabou Chorare

Você pode ler este post ao som de A menina dança, Novos Baianos.

Lançado pela Som Livre em 1972, Acabou Chorare é o segundo álbum de estúdio dos Novos Baianos. No ápice da Ditadura Militar, fazer música no Brasil era um grande desafio: representar o sentimento comum do brasileiro sedento pela volta da democracia sem falar explicitamente dela era o mínimo (e não perder a alegria melódica inerente à Música Popular Brasileira arte por si só). Sabemos que apenas os bons conseguem essa proeza.

Era uma tarde cinza dessas que baixa a nossa energia e nos faz questionar o conceito de felicidade. Eu, que basicamente só ouço música internacional, contemplava aquele momento de reflexões inoportunas com as faixas mais tristes de The Fray que eu poderia escolher. Foi quando recebi Preta Pretinha com uma mensagem subliminar de “vai ficar tudo bem“. O Pedro é daquelas pessoas que curtem as entrelinhas e as múltiplas interpretações — eu devo tê-lo agradecido usando a mesma estratégia (e se você não entendeu dessa forma naquele dia, fica aqui meu “muito obrigada”).

Eu sabia que já tinha ouvido aquela música alguma vez na minha vida. Talvez na época em que eu ainda dividia quarto com a minha irmã mais velha e ela colocava a Nova Brasil FM para tocar, bem baixinho, antes de dormir. Desde nova já tinha barulho demais dentro da cabeça quando caía a noite, então esperava ela apagar e desligava o rádio antes do timer de uma hora. Ela fingia que não percebia.

Apesar dessa rotina diária-noturna de doses de MPB, eu sempre me conectei mais com a música norte-americana. Talvez a forma como o estado-unidense sofre por amor seja parecida com a minha. Talvez eu tenha quebrado a conexão com as minhas próprias raízes brasileiras quando desligava o rádio na calada da noite.

O que eu sei é que Preta Pretinha me arrancou do estado de espírito cinza-depressivo em menos de dez segundos. Cogitei tentar encontrar na letra algo que eu pudesse associar com o que eu sentia, mas a melodia me trouxe o que nenhum desabafo de desilusões embalado por acordes de piano conseguiria. Eu, que não me sentia tão brasileira quando se trata de arte, me senti em casa.

Com suas reflexões inquietas e seu apego por álbuns inteiros, Pedro me fez lembrar de tudo isso quando propôs essa experiência musical tão pessoal. Acabou Chorare não é só um pacote completo e musicalmente complexo do cenário brasileiro, mas uma passagem para o universo dessa pessoa que, vira e mexe, me faz pensar em coisas cotidianas com uma profundidade ímpar.

Então, mais uma vez, no meio da desesperança, eu tentei ser a menina que dança, balançando timidamente na cadeira barata do escritório improvisado. Sei que nos momentos mais aleatórios vou me lembrar de Besta é tu e cantarolar pelas próximas duas horas. E por muito tempo não vou conseguir escolher entre a primeira e a segunda versão de Preta Pretinha, o que é ótimo para ocupar a cabeça enquanto o mundo acaba lá fora, mesmo ele estando inteiro em cada verso dessas músicas.

Acabou Chorare me lembrou que nem sempre a arte é sobre a gente, mas sobre nosso entorno. É sobre a lei natural dos encontros, onde a gente deixa, mas também recebe um tanto. É sobre trocar de universos por alguns instantes, transitar entre a melancolia de histórias de amores partidos e a história do nosso país, mesmo que com múltiplas interpretações. Ele passou a ser um lembrete de que sou mais brasileira do que achava ser e eu me senti em casa de novo. Às vezes é só o que a gente precisa.

Crédito da foto: Vinicius Pontes

As bocas que eu beijei

Você pode ler este post ao som de New Romantics, Taylor Swift

Você perguntou o nome dele, pelo menos?” A pergunta saiu abafada na música alta da baladinha de uma das Noites do Terror do Playcenter. Aos quatorze, eu, que nem sabia direito o que era ser julgada, não soube responder minha amiga — uma das únicas razões de eu ter ido a um parque de diversões mesmo odiando parques de diversões.

Nos dias que se seguiram, o beijo que eu tinha dado no desconhecido foi assunto na rodinha. Então o que tinha sido só um beijo virou motivo de culpa e dúvidas desconfortantes: quantas será que ele beijou antes de mim? Será que peguei alguma doença? Deveria ter conversado com ele um pouco? O que era só uma das únicas coisas legais de se fazer — que não era me dependurar a trocentos metros de altura de ponta cabeça — me mostrou como seria a minha vida dali pra frente: encontrar justificativas morais para os meus relacionamentos.

Porque já não basta a gente nascer com a obrigação de encontrar o amor da nossa vida, casar e procriar, a gente precisa provar nosso amadurecimento emocional para ser digna de tal. E isso está em tudo: nos lugares que frequentamos, se voltamos cedo ou tarde para casa, no conteúdo que consumimos (não, não é só por nostalgia que eu assisto The Vampire Diaries com vinte e sete anos, eu assisto porque eu gosto mesmo), na importância que damos para os laços que criamos.

A história do desconhecido do Playcenter pode soar engraçadinha porque eu era nova quando aconteceu. Mas e se eu te contasse que, com quase trinta anos, eu ainda beijo bocas indigentes? Que eu bebo um pouco demais quando tenho vontade e chego em caras desconhecidos com os quais eu quero ter só um lance? E se eu te dissesse que se eu fico com nenhum cara ou dez num mesmo rolê isso não define o quão madura ou profunda eu sou? Você ainda iria querer saber os nomes deles?

Quando você tem quatorze anos e sua amiga da escola te pergunta qual o nome do carinha que você beijou, várias coisas passam pela sua cabeça. É ali, na puberdade, que a gente começa a entender o que é se relacionar, a conhecer nosso corpo, nossas vontades e limites. Mas não é ali que a gente consegue definir, e escrever em pedra, como a gente vai lidar com os nossos relacionamentos ao longo da vida. Nós nos deparamos o modelo tradicional e o resto do mundo espera que a gente o siga à risca. Dançamos conforme a música e, às vezes, a gente começa a questionar tudo um pouco tarde demais.

Quando você tem quatorze anos e se questiona porque beijou um completo desconhecido, é porque provavelmente você não sabia o que estava fazendo e, obviamente, era imatura. E você deixa as pessoas te questionarem também, não consegue impedir que te julguem. Mas quando você já viveu um terço da sua vida, comeu o pão que o diabo amassou tentando seguir a regra dos relacionamentos, aprendeu da forma mais árdua que relações profundas são flores repletas de espinhos, uma pessoa te dizendo que o seu comportamento é superficial e juvenil é um ultraje. 

Ter opinião sobre as coisas é o que nos distingue uns dos outros e isso a coisa mais incrível em ser humano. Contudo, também somos construídos por contextos, vontades, traumas e fazemos o que fazemos por milhares de razões. Nós entendemos o que nos faz felizes, nos diverte, como isso influencia na nossa história e quantas personagens — anônimas ou não — ela vai ter. Talvez seja a hora de quebrarmos essa régua que mede as pessoas por situações isoladas e prestar um pouco mais de atenção em quem elas realmente se mostram ser. Isso, sim, vai além do nome delas.

Crédito da foto: Aleksandar Pasaric

 

 

Tudo bem não estar tudo bem

Você pode ler este post ao som de Who you are, Jessie J

“Toda vez que minha mãe liga
Ela pergunta
‘Tudo bem, filha?’
e eu respondo
‘Tudo e você, mãe?’
e ela responde
‘Tudo bem também’

Que grandes mentirosas.”

Este trecho foi retirado do livro “40 pequenos desabafos de quem não nasceu para a quarentena“, da Ruth Manus. Depois de tê-lo lido, eu te pergunto: quantas vezes você também já mentiu durante o isolamento social?

Há um pouco mais de dois meses, nossas rotinas mudaram drasticamente. Aprendemos da forma mais difícil que não estamos no controle de absolutamente nada — quando o que a gente mais fazia era desenhar nosso futuro como bons controladores que somos. Fomos tomados pela impotência, quando há um inimigo invisível nos ameaçando enquanto tentamos derrotá-lo com sabão e álcool gel. Fomos abraçados pela ansiedade de ter que olhar para frente e enxergar apenas o agora. E também pelo medo, quando mais de trezentas mil pessoas já morreram no mundo*.

Obviamente, cada um tem lidado com o cenário atual a sua maneira. A gente vê de tudo: quem consome notícias incessantemente e consegue analisar a situação de maneira fria, quem consome notícias e tem surtos de realidade a cada cinco segundos. Quem prefere não saber do que está acontecendo em prol da sanidade, quem está sem energia para fazer qualquer coisa produtiva, quem tem utilizado do tempo para fazer cursos, ler livros e assistir coisas. Há quem tenta se abster do mundo externo e quem está em negação.

Você pode até tentar se desconectar, mas a informação vai chegar até você. Bastam cinco minutos em qualquer rede social rindo de alguma bobagem que temos milhares de pessoas falando sobre a crise política e sanitária que estamos vivendo no país. Infinitas opções de cursos livres online, páginas e mais páginas no Instagram com exercícios físicos para entrar “em forma”, receitas para todos os gostos, lives dos nossos artistas favoritos, resenhas dos livros que nunca imaginaríamos querer ler algum dia. Estamos sendo bombardeados de distrações para tentar suprir o fato de que conviver com a gente mesmo é mais difícil do que imaginamos. O que era para ser nosso momento de poder desacelerar, olhar para dentro e cuidar da nossa saúde física e mental se tornou uma nova marotona de metas — dessa vez, dentro de casa.

Querendo ou não, todas essas coisas se tornam nossas cúmplices quando alguém nos pergunta se está tudo bem. “Nossa, estou assistindo todo o catálogo da Netflix e correndo na minha esteira nova todos os dias, tem sido incrível!” vem junto com os stories da aula de yoga e de receitas bem sucedidas. Está todo mundo bem, obrigada.

Não quero dizer que todo mundo deveria entrar em um estado depressivo ou de pânico total — e muito menos que essas pessoas não estão aproveitando o lado positivo da quarentena. O que eu fico pensando é se estamos, de fato, dando vazão ao que sentimos quando o que mais a gente tem feito é preencher a mente com coisas que nos tiram da realidade atual. Nos proibimos de sentir o medo, a ansiedade e a impotência completamente esperadas quando o mundo parece que vai acabar a qualquer momento. Não nos permitimos falar sobre o saldo desse momento que nos oferece tempo e espaço para olhar para dentro.

Repito: cada um vai lidar com os fatos da maneira que achar melhor. Contudo, é importante lembrar que tudo bem não ser uma pessoa produtiva, mesmo tendo mais tempo. Tudo bem se a sua energia estiver baixa e você não tiver vontade de fazer nem as coisas que considerava legais; a rotina mudou completamente. Tudo bem você ficar triste, mesmo quando todas as pessoas que você ama estejam seguras; você pode não estar de luto diretamente, mas o mundo inteiro está. E tudo bem estar sensível.

Estamos vivendo algo inesperado. Aprendemos arduamente que não temos controle de nada, então por que insistimos tanto em controlar nossas emoções?

* Dados de 26 de maio de 2020

Crédito da foto: Emma Filer

E a Adele emagreceu…

Você pode ler este post ao som de He won’t go, Adele

O dedilhado de Someone like you foi um dos poucos que aprendi a fazer no meu violão. Adele teve grande influência na minha construção musical — eu era adolescente quando ela estourou com seu segundo álbum, o 21. Sua voz singular dando corpo à melancolia de histórias de amor sempre foram catarses inspiradoras. E eu, obviamente, não sou a única que se sente assim.

Adele foi acumulando fãs e sucesso ao redor do mundo: com apenas três álbuns lançados, ela ganhou cerca de duzentos prêmios, dentre eles quinze Grammys (um dos mais importantes da música), estando em primeiro lugar na Billboard por mais tempo que qualquer outra artista feminina. Mesmo tendo tocado a vida de tantas pessoas com um propósito muito maior do que estar em uma vitrine sendo mais um corpo perfeito, sua aparência sempre foi um fator para quem quisesse julgar. Na última semana, não foi diferente. Adele deu as caras e – pasme – estava magra!

Qualquer tipo de mudança brusca gera atenção, especialmente se ela está em uma celebridade. Em programas de TV, revistas, sites e na mídia como um todo, só se fala disso: da fulana que platinou o cabelo, da ciclana que apareceu de biquini na praia mostrando as celulites. E são vários exemplos: quando a Taylor Swift voltou a fazer aparições públicas no ano passado, só se falava no quanto de peso ela tinha ganhado. Em uma entrevista no programa da Ellen Degeneres, os comentários não eram sobre o álbum novo que ela lançaria meses depois, mas sobre seu corpo.

Mas voltando para a Adele: ela foi criticada por não estar dentro dos padrões de beleza a sua trajetória inteira; mesmo sendo uma artista super bem sucedida e talentosa. O que ela tem de mais rico, que é a sua arte, sempre foi invalidado pelos holofotes que insistiam em pontuar sua forma física como a questão mais importante da sua carreira. Não é à toa que o fato de ela ter emagrecido de forma considerável tenha virado notícia mundialmente.

O que devemos nos questionar perante a esses acontecimentos é: o que torna nossos corpos – principalmente femininos – a coisa mais importante a ser apontada em uma pessoa? Até quando seremos categorizadas como dentro e fora dos padrões estabelecidos pela sociedade e pela mídia? Até quando nossa imagem será patrimônio público da forma mais masoquista possível?

Um caso interessante aconteceu aqui no Brasil; no ano passado, a atriz Cléo Pires (que sempre foi magra, vale ressaltar) foi hostilizada em suas redes sociais quando postou uma foto que mostrava um ganho de peso. Comentários como “preferia você magra” e “você está deformada” são apenas exemplos de como as pessoas reagiram com a mudança. Em uma entrevista para o Fantástico, ela falou sobre as loucuras que fez para conseguir manter um corpo magro por todos aqueles anos como atriz — que vão de dietas inadequadas a uso de remédios controlados — e de como a reação dos internautas eram gatilhos para suas compulsões.

Outro exemplo é o da cantora americana Demi Lovato, que contou, também no programa da Ellen Degeneres, que pessoas do seu time chegaram a pedir para que retirassem comida do seu camarim para que ela não comesse. Para quem não sabe, ela sofre de distúrbios alimentares, o que desencadeou seu vício em álcool e outras drogas. Lovato teve uma overdose e foi encontrada desacordada, no ano passado.

O que todas essas artistas têm em comum? Talento, fama e o mundo inteiro julgando suas formas físicas.

Música é para os ouvidos, não para os olhos” é uma frase famosa da cantora para rebater as críticas que sempre sofreu. E ela nos lembra de que nós precisamos nos unir para que outras mulheres vejam as Adeles do mundo afora como boas profissionais que são. Que ouçam suas músicas, leiam seus livros ou desfrutem de qualquer outra coisa que fizerem sem colocá-las em uma posição desconfortável e completamente desnecessária, como a exposição de seus corpos. 

Crédito da foto: REUTERS/Lucy Nicholson

 

A tal da responsabilidade afetiva

Você pode ler este post ao som de Dancing on my own, Callum Scott

Eu conheci o Gael* no meu aniversário de vinte e um anos, numa balada na Baixo Augusta chamada Astronete que acabou fechando logo depois. Ele era um dos bartenders e me chamou a atenção no primeiro olhar. Alguns drinks depois (feitos por ele mesmo, inclusive), criei coragem e pedi um guardanapo para anotar meu número de telefone, o que fez com que eu me sentisse a mulher mais corajosa daquela noite. No fundo, eu não achei que ele fosse me mandar mensagem no dia seguinte. Mas ele mandou.

Nos falávamos por horas a fio e, no fim de semana seguinte, ele atravessou a cidade para me encontrar em uma despedida de uma amiga que ia estudar fora. Ele conheceu parte dos meus amigos, fez questão de interagir e ser simpático com todos eles. Tivemos uma noite incrível, cheia de beijos e conversas. E expectativas foram criadas.

Gael se despediu de mim com um beijo suave nos lábios, dizendo que mal podia esperar pelo nosso próximo encontro — um jantar em um restaurante mexicano. Tínhamos chegado a essa conclusão quando eu disse que era uma das minhas culinárias favoritas e descobri que tínhamos isso também em comum. Então eu nunca mais o vi.

Aquilo nunca tinha me acontecido, não que eu tivesse percebido ou de forma tão brusca. Lances e romances anteriores tendiam a acabar naturalmente, quando morria o assunto ou qualquer coisa que mantinha tudo vivo. Mas eu nunca tinha cruzado com alguém que simplesmente sumiria. Eu me lembro de ter mandado mensagem para ele no dia seguinte e ter ficado alguns dias sem resposta. Até que escrevi de novo, perguntando se estava tudo bem, e ele me disse que andava muito ocupado – ali foi minha deixa para me retirar.

Não posso dizer que amava Gael, mas tinha curtido a forma como a gente havia se cruzado e as coisas acontecido — sabe o destino? E de uma hora para outra, me vi pesquisando no Google uma razão coerente para ele simplesmente ter ido embora sem dar tchau.

Naquela época (2013), o termo ghosting nem sequer existia – minha terapeuta brinca que fui eu quem o inseriu no vocabulário dos relacionamentos modernos. E era muito isso, uma pessoa real que desaparecia como se tivesse morrido, virado um fantasma. De lá para cá, perdi as contas de quantos Gaéis apareceram na minha vida, o que tem me feito refletir muito sobre ter responsabilidade com o sentimento alheio.

Li outro dia uma frase que ficou marcada: “às vezes o que não significa nada para você pode significar muito para o outro”. Sei que ninguém nasce pleno e sensato e só faz o bem. Eu já devo ter sido esse tipo de filha da puta e reconheço (e abro esse parêntese para pedir desculpas se um dia fui com quem estiver lendo). Um encontro para o Gael pode ter sido só um encontro – ou ele pode ter mudado de ideia no meio do caminho, o que não julgo. Para mim, foi o surgimento de um sentimento de que algo bom poderia acontecer ali.

Precisamos levar em consideração o quão essencial é deixar o outro saber das nossas intenções – e com clareza. O tempo que uma pessoa espera para entender seus sentimentos e a forma com que ela age podem ser o espaço-tempo perfeito para a outra se envolver. Se você transmite uma mensagem diferente do que sente, o outro pode simplesmente acreditar em você e sofrer quando descobrir que não era bem por aí. Quando você não consegue terminar uma relação, por menor que ela seja, e simplesmente ignora a existência de quem esteve ali por você, isso pode causar danos e traumas, às vezes irreparáveis.

Ninguém é obrigado a gostar de ninguém ou querer a mesma coisa que a outra pessoa quer. A forma como o outro lida com suas rejeições não cabe a gente decifrar, mas tentar ter o mínimo de dignidade e sair pela porta da frente é o que pode poupar alguém (que gosta de você, diga-se de passagem) de um sofrimento ainda maior. A comunicação nunca foi tão importante, ainda mais em uma época repleta de recursos para tal.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem.

Crédito da foto: StockSnap–894430

A canoa

Você pode ler este post ao som de Beautiful girl, Sara Bareilles

Era uma quarta-feira dessas de quase verão bem esquisitas — que faz um calor abafado quase que insuportável e termina com uma chuva torrencial que ninguém sabe de onde vem. Meu escritório era uma mesa desarrumada dentro do meu quarto com pouca ventilação, onde meus ursinhos de pelúcia antigos e minha cachorra me assistiam trabalhar. Perdi a conta de quantas abas e arquivos de word me encaravam e a inspiração que eu deveria ter parecia ter se dissipado no meio de todas elas.

Eu havia cruzado com Fernando* no aplicativo fazia alguns dias, mas nosso encontro, ao que parecia, estava longe de acontecer. Nossas rotinas não queriam que aquele match acontecesse na vida real e o tempo passava e me deixava ainda mais curiosa. Eu não queria saber se ele era atraente, mas queria ouvir sua voz. Não queria saber se o papo era legal (o que parecia ser pelas mensagens que a gente trocava), mas sentir o peso da sua energia. Queria conhecer a pessoa que ele era e não continuar criando uma personagem na cabeça.

A chuva ainda caía lá fora e eu tinha um único desejo que era sentar em uma cadeira que não fosse aquela barulhenta do meu quarto e tomar uma cerveja. São poucas vezes na vida que eu não me importo com temporais de verão, ainda mais quando a ideia de encontrar alguém novo invadia tudo que passava ou deixava de passar pela minha cabeça. Parei, pensei bem: quem é que vai querer sair pra me ver com esse tempo?

No meio do meu gole de café, no dia seguinte, Adriana* me disse uma coisa que eu acredito jamais esquecer: “se eu fosse esse cara, eu te buscaria de canoa na sua casa para ir aonde quer que fosse“. Com esse comentário, coisas muito peculiares começaram a passar pela minha cabeça:

  1. não sei se eu sou tão legal assim não sei se iriam me achar tão legal assim
  2. será que eu valho um passeio de canoa será que ele teria uma canoa
  3. quem sairia nessa chuva comigo será que ele sairia nessa chuva comigo

Eu nem havia chegado a perguntar para ele se ele queria ou não sair comigo, no meio da semana e da possível enchente. Talvez ele até aceitasse, inventasse uma desculpa ou sei lá o quê, isso não importava. Fiquei pensando na razão de eu não ter nem chamado. Seria baixa autoestima? Seria. Não tem muito o que dizer.

Eu queria muito enxergar, pelo menos, dez porcento do que as minhas amigas enxergam em mim. Acreditar que o que elas dizem ao meu respeito é genuíno e não só porque elas me amam. Acreditar que essa admiração é vista e desejada por outras pessoas fora do meu círculo de amizades.

Mas, no fundo, a gente sabe que não é bem assim que as coisas funcionam. Num mundo imagético, tecnológico, com aparatos oferecendo diversas opções a todo vapor, é perigosamente fácil contestar nosso valor. É uma dança sem coreografia bem definida de tentar superar aquele reflexo no espelho e, ao mesmo tempo, enxergar nossas singularidades e sermos gentis com a gente mesmo.

O que a gente pensa sobre quem a gente é pode ser a nossa melhor arma — seja contra os encontros mais furados da vida ou de pessoas que não valem a pena nosso tempo, seja optar por aceitar ou não menos do que a gente merece. Se quem a gente gosta vai vir de carruagem, bicicleta, canoa ou simplesmente não vir, isso foge completamente do nosso controle. Nosso amor próprio não.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das personagens.

Crédito da foto: Oleg M Kulishov

Marcas

Você pode ler este post ao som de 6th Avenue Heartache, The Wallflowers

Ficar em um mesmo lugar por muito tempo faz você criar novas perspectivas para o que sempre esteve ali. O bar que você frequenta há anos e já sabe até o nome dos garçons, os relacionamentos longos que cultiva, a casa onde sempre morou, tudo muda. E nem sempre mudanças são confortáveis, o que traz aquela inquietação em fazer algo para nos sentirmos em um território conhecido e seguro de novo.

Há uns anos atrás, colei uns adesivos e quadros perto da minha cama que, ultimamente, começaram a me incomodar. Eles não sairiam dali naturalmente, o que era óbvio, então decidi me livrar deles e criar uma nova identidade para o ambiente. O resultado foi uma troca muito ingrata, eu passei a ter marcas de fita adesiva por todos os lados. Para uma pessoa normal, aquilo seria muito fácil de resolver; erá só pintar a parede e começar do zero. Eu, no entanto, optei por trocar o guarda-roupa de lugar e cobrir a parede defeituosa com ele.

O móvel era pesado, então precisei tirar tudo o que tinha de dentro e espalhar por onde quer que houvesse espaço — gerando ainda mais desordem e arrependimento. Convoquei meu irmão para arrastá-lo e me acompanhar na crise de riso e de nervoso que se seguia nos próximos passos daquela saga. É engraçado como os atalhos que a gente cria para resolver problemas soam sempre inéditos. Raramente temos lapsos de consciência que nos dizem que o caminho pode ser mais fácil, mas o tiro sai pela culatra. Atrás do guarda-roupa tinha outras marcas antigas que diziam em alto e bom som você já fez isso antes. As coisas estavam fora do lugar na minha casa, mas começaram a se encaixar na minha cabeça.

Eu tinha passado a vida inteira arrastando guarda-roupas metafóricos e lidando com os restos de perspectivas antigas. A solução (o tal do balde de tinta) me assistindo de camarote enquanto eu fugia, cobria, arrancava, encarava o que nem era a tática mais simples. Eu escolhi a parede que estava em melhor estado e rearranjei meu quarto de uma forma que mostrasse que aquilo tudo tinha valido a pena. Provavelmente encontraria algo que cobrisse o que restou daquela bagunça que acabara de se internalizar.

A faxina havia surgido do tédio, mas sufocar questões mal resolvidas parecia ser pura teimosia. Quantas pessoas não haviam sido a cobertura de paredes impenetráveis pela falta de reciprocidade? Quantas validações externas tapearam a crença que eu precisava ter em mim mesma? Quantas vezes eu trocara perguntas diretas por mensagens com duplos sentidos para adiar alguma verdade, muitas vezes estampada para todo mundo ver?

E nenhum desses processos era leve ou fácil de se arrastar por aí. Quase todos bagunçaram ainda mais a casa. Alongaram enredos que poderiam ter me machucado menos se eu tivesse tomado o tempo certo das coisas, tido paciência para a tinta secar, para as feridas sararem.

Tudo muda, isso é certo. Se a mudança vem de dentro para fora pelo nosso olhar, ou se ela faz a gente se adaptar a novos cenários, o importante é nos conhecermos e nos aceitarmos dentro deles. Entender que saídas instantâneas podem bater na nossa porta, cedo ou tarde, nos provando que não somos tão espertos assim.

Crédito da foto: Dương Nhân

 

 

Acredite: se apaixonar já foi bom

Você pode ler este post ao som de In your atmosphere, John Mayer.

É o seguinte, meninas: nós vamos voltar para o bar e encontrar o boy da Grazi*, depois vamos para casa nos arrumar e ir para o Saravá. Eu já estava arrependida de ter dito que tudo bem fazer dois rolês em um dia enquanto carregava uma gripe e uma semana intensa nas costas — e a Mariana* mal tinha terminado a frase. Descíamos uma rua desconhecida, de um bairro sorocabano também desconhecido ao passo que o efeito do álcool e dos analgésicos ia passando.

O lugar tinha diminuído em meia-hora em que estivemos fora, o número de pessoas aumentado e a qualidade da música melhorado consideravelmente. A energia do lugar estava mais vibrante, gente fantasiada para todo lado — como um bom carnaval — olhares em busca de outros olhares, sorrisos encontrando outros sorrisos. Não demorou muito para presenciarmos os beijos despretenciosamente carnavalescos mais esperados da noite. E continuamos dançando, rindo, álcool indo embora.

Uma coisa muito interessante sobre esses grandes eventos é a rapidez das coisas. Você está plena tomando sua cerveja quente ou checando redes sociais. No segundo seguinte tem um cara te agarrando. E você não vê uma seção de eventos que faça sentido, o nome dele eu saberia bem depois, pois ao som de Netinho tudo fica muito confuso. E tem aquele papo pós agarramento desconfortante em que ele comenta que aquela música marcou muito a época dele e fala que você é nova demais para saber. Tudo isso em slow motion e você se pergunta de onde aquele cara saiu. É carvanal, Joy!, elas disseram.

E era carnaval. E o Eduardo* (era esse o nome dele!) me lembrava algum ator da Globo, além de usar um perfume gostoso. E estava tudo bem ou estaria tudo bem em outras circunstâncias. Tinha algo me incomodando e eu só fui descobrir o que era no dia seguinte. GPS ‘tava ok. Playlist ok. Dinheiro do pedágio ok. Cabeça not so ok.

Droga.

Eu sabia o que era.

E lá íamos nós de novo, pela estrada metafórica mais agonizante que a volta para casa em pleno feriado. O problema não era quem eu tinha beijado, mas quem eu queria ter beijado todos aqueles dias. Quem não saía da minha cabeça e fazia meu coração dar tranquinhos toda vez que uma mensagem nova chegava. O lance que eu não tinha a menor ideia do que iria virar e até dois dias atrás estava tudo bem não saber.

Em algum lugar do tempo, distante, bem pequeno, houve uma época em que estar apaixonado por alguém era motivo de alegria, de liberdade, de se sentir vivo. E, por incrível que pareça, eu tento arduamente manter esse pensamento (a música Someone New do Hozier me descreve bem nessa esfera). Pessoalmente, não tem nada mais altruísta e inspirador que enxergar além do que se vê. Ver tudo transparente no meio de um monte de nuvem cinza. Eu sei que não faz sentido algum, mas não é para fazer, certo? Nunca foi.

A vida adulta traz consigo uma casca. Nossas cicatrizes têm nos tornado pessoas receosas, ansiosas e amargas. Não existe mais pensamento positivo em torno daquilo que — ou de quem — se quer. Nossas aspirações amorosas já vêm com data de validade e perdemos toda a magia da incerteza porque não nos damos mais o tempo de seguir em frente com algo mesmo assim. Se isso não for triste, eu já nem sei mais o que é triste.

De quilômetro em quilômetro, a ansiedade aumentava. Stevie Wonder, The Cure, Pearl Jam. Nada aquietava a cabeça. Eu tinha sido pega pelo bichinho que deixa o frio na barriga congelar o corpo inteiro até pedirmos arrego, pedirmos para sair. Eu não queria mais sentir aquilo tudo. Queria que aquela boca aleatória não tivesse me trago o gosto amargo desse medo que ia me fazer ouvir John Mayer por uma semana seguida.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das personagens.

Crédito da foto: Picography

Café forte

Você pode ler este post ao som de Stay or Leave, Dave Matthews

A gente trocava nossos drinks de gin a cada teoria maluca ou realidade crua do mundo adulto. O bar estava claramente fechando e eu me sentia paralisada enquanto meu riso ecoava entre portas fechadas e cadeiras em cima das mesas. Estávamos ali, frente a frente, e parecia o primeiro encontro. Tínhamos várias histórias dentro de uma e eu sabia que aquela poderia acabar a qualquer momento. Alex* me ensinava a viver os instantes como ninguém — se não podemos prever o futuro, com ele eu nunca tinha a mínima ideia.

Eu nunca gostei de café forte. Sendo sincera, nem fraco demais, o que é estranho para uma pessoa que navega entre extremos. Entre doce e salgado, prefiro doce. Calor a frio e por aí vai. Ou é ou não é foi a frase que se colidia entre a parede e ele quando achei que aquela seria a última vez que fôssemos nos falar. “Assustei o cara” era um pensamento que corroía a cabeça conforme o coração batia forte na adrenalina de, finalmente, esclarecer o que eu esperava dele. No fim, quem se assustou fui eu.

Nosso ritmo seguia como o café amargo sem açúcar do qual eu não gostava nem um pouco. Ele se retirava do espaço, esquecendo um pouco de si em cada memória que fizera. Eu lutava contra o arrepio na espinha cada vez que me lembrava da sua respiração profunda no meio da noite, seu corpo quente entrelaçado no meu. Era uma batalha diária com cada palavra que tirava outro vagão do meu trem descarrilhado dos trilhos.

Ele me ofereceu café e eu disse sim, me sentindo um tanto culpada de ele ter que fazer algo por mim. “Acho que ficou forte”. Nunca gostei de café forte, nem fraco demais, o que era estranho para uma pessoa que navega entre extremos, mas fazia total sentido para quem vivia cada dia ao lado de alguém como se fosse o último. Coloquei açúcar no que não parecia ser o café que eu gostaria e fechei os olhos. O primeiro gole resumiu o que eu mais temia: naquele domingo à tarde, que para a gente ainda era uma manhã despretensiosa, eu tomei o melhor café da minha vida.

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.

Crédito da foto: Madison Inouye

Keep calm e não crie expectativas

Você pode ler este post ao som de Your Love, The Outfield

Quando alguém fala para não criarmos expectativas, geralmente é tarde demais. Na maioria das vezes nem precisou de muito: foram os olhares se encontrando depois de um beijo que fez nossas pernas tremerem, mesmo quando firmes no chão. Foi a cabeça deitada no ombro no banco de trás, voltando para casa. Foi a mensagem dizendo que chegou bem em casa.

No consultório sem mobília da minha terapeuta, sentada em uma cadeira de plástico com uma vista ampla do bairro de Pinheiros, eu me comparei com um cachorro que ganha um carinho e sai rolando pelo chão como se a vida dele inteira fosse aquele momento de atenção. Será que eu sou tão carente assim? Quando foi que ficamos tão carentes assim? Ou será que a vida inteira fomos ensinados que gostar de alguém deveria tomar um tempo que garantisse uma certeza no final?

Não crie expectativas é a coisa mais cruel que alguém pode nos dizer quando acabamos de ficar com alguém e estamos curtindo a fase onde tudo acontece, basicamente, dentro da nossa cabeça. Queremos ver a pessoa de novo, repetir o beijo e as mãos entrelaçadas, mas imaginamos que ainda é cedo demais, como nos contaram. Quem não cria expectativas espera e deixa acontecer [naturalmente], ou seja: entrega a decisão na mão do outro que ora não sente o mesmo ora também está no aguardo. Também tem aquela pessoa não criante de expectativas que vai lá, faz acontecer e não deixa a própria mente levá-lo a lugares que ele talvez nunca chegue.

Fato é que não podemos ditar o que a gente sente, mesmo entendendo que relações devem ser baseadas em construção e conhecimento de quem está do nosso lado (sem essa de criar personagens apaixonáveis e esperar que o outro interprete esse papel para nos fazer feliz). No fundo, sabemos que manter os pés no chão é a melhor maneira de prevenir que nos machuquemos, mesmo que isso não seja uma garantia.

Na maior parte do tempo, o mantra não crie expectativas vem de nós mesmos e do medo de nos apegar ao que não sabemos se um dia será nosso. Vem de uma porção de gente que já passou pelas mesmas incertezas e usa os próprios calos e conselhos para passar uma mensagem quase que universal: o friozinho na barriga pode facilmente se tornar um mal-estar e ninguém precisa passar por isso.

Se estamos construindo algo, deveríamos saber que os riscos fazem parte de um processo do qual não temos o menor controle. Deixar as borboletas no estômago voarem para longe e livres em busca de algo novo não é nenhum pecado. Triste não é criar expectativas, é viver às sombras de traumas, não se permitir sentir e perder o primeiro capítulo de uma história — que é justo aquele que define se ela é digna ou não de ser lida.

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