Acabou Chorare

Você pode ler este post ao som de A menina dança, Novos Baianos.

Lançado pela Som Livre em 1972, Acabou Chorare é o segundo álbum de estúdio dos Novos Baianos. No ápice da Ditadura Militar, fazer música no Brasil era um grande desafio: representar o sentimento comum do brasileiro sedento pela volta da democracia sem falar explicitamente dela era o mínimo (e não perder a alegria melódica inerente à Música Popular Brasileira arte por si só). Sabemos que apenas os bons conseguem essa proeza.

Era uma tarde cinza dessas que baixa a nossa energia e nos faz questionar o conceito de felicidade. Eu, que basicamente só ouço música internacional, contemplava aquele momento de reflexões inoportunas com as faixas mais tristes de The Fray que eu poderia escolher. Foi quando recebi Preta Pretinha com uma mensagem subliminar de “vai ficar tudo bem“. O Pedro é daquelas pessoas que curtem as entrelinhas e as múltiplas interpretações — eu devo tê-lo agradecido usando a mesma estratégia (e se você não entendeu dessa forma naquele dia, fica aqui meu “muito obrigada”).

Eu sabia que já tinha ouvido aquela música alguma vez na minha vida. Talvez na época em que eu ainda dividia quarto com a minha irmã mais velha e ela colocava a Nova Brasil FM para tocar, bem baixinho, antes de dormir. Desde nova já tinha barulho demais dentro da cabeça quando caía a noite, então esperava ela apagar e desligava o rádio antes do timer de uma hora. Ela fingia que não percebia.

Apesar dessa rotina diária-noturna de doses de MPB, eu sempre me conectei mais com a música norte-americana. Talvez a forma como o estado-unidense sofre por amor seja parecida com a minha. Talvez eu tenha quebrado a conexão com as minhas próprias raízes brasileiras quando desligava o rádio na calada da noite.

O que eu sei é que Preta Pretinha me arrancou do estado de espírito cinza-depressivo em menos de dez segundos. Cogitei tentar encontrar na letra algo que eu pudesse associar com o que eu sentia, mas a melodia me trouxe o que nenhum desabafo de desilusões embalado por acordes de piano conseguiria. Eu, que não me sentia tão brasileira quando se trata de arte, me senti em casa.

Com suas reflexões inquietas e seu apego por álbuns inteiros, Pedro me fez lembrar de tudo isso quando propôs essa experiência musical tão pessoal. Acabou Chorare não é só um pacote completo e musicalmente complexo do cenário brasileiro, mas uma passagem para o universo dessa pessoa que, vira e mexe, me faz pensar em coisas cotidianas com uma profundidade ímpar.

Então, mais uma vez, no meio da desesperança, eu tentei ser a menina que dança, balançando timidamente na cadeira barata do escritório improvisado. Sei que nos momentos mais aleatórios vou me lembrar de Besta é tu e cantarolar pelas próximas duas horas. E por muito tempo não vou conseguir escolher entre a primeira e a segunda versão de Preta Pretinha, o que é ótimo para ocupar a cabeça enquanto o mundo acaba lá fora, mesmo ele estando inteiro em cada verso dessas músicas.

Acabou Chorare me lembrou que nem sempre a arte é sobre a gente, mas sobre nosso entorno. É sobre a lei natural dos encontros, onde a gente deixa, mas também recebe um tanto. É sobre trocar de universos por alguns instantes, transitar entre a melancolia de histórias de amores partidos e a história do nosso país, mesmo que com múltiplas interpretações. Ele passou a ser um lembrete de que sou mais brasileira do que achava ser e eu me senti em casa de novo. Às vezes é só o que a gente precisa.

Crédito da foto: Vinicius Pontes

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