As bocas que eu beijei

Você pode ler este post ao som de New Romantics, Taylor Swift

Você perguntou o nome dele, pelo menos?” A pergunta saiu abafada na música alta da baladinha de uma das Noites do Terror do Playcenter. Aos quatorze, eu, que nem sabia direito o que era ser julgada, não soube responder minha amiga — uma das únicas razões de eu ter ido a um parque de diversões mesmo odiando parques de diversões.

Nos dias que se seguiram, o beijo que eu tinha dado no desconhecido foi assunto na rodinha. Então o que tinha sido só um beijo virou motivo de culpa e dúvidas desconfortantes: quantas será que ele beijou antes de mim? Será que peguei alguma doença? Deveria ter conversado com ele um pouco? O que era só uma das únicas coisas legais de se fazer — que não era me dependurar a trocentos metros de altura de ponta cabeça — me mostrou como seria a minha vida dali pra frente: encontrar justificativas morais para os meus relacionamentos.

Porque já não basta a gente nascer com a obrigação de encontrar o amor da nossa vida, casar e procriar, a gente precisa provar nosso amadurecimento emocional para ser digna de tal. E isso está em tudo: nos lugares que frequentamos, se voltamos cedo ou tarde para casa, no conteúdo que consumimos (não, não é só por nostalgia que eu assisto The Vampire Diaries com vinte e sete anos, eu assisto porque eu gosto mesmo), na importância que damos para os laços que criamos.

A história do desconhecido do Playcenter pode soar engraçadinha porque eu era nova quando aconteceu. Mas e se eu te contasse que, com quase trinta anos, eu ainda beijo bocas indigentes? Que eu bebo um pouco demais quando tenho vontade e chego em caras desconhecidos com os quais eu quero ter só um lance? E se eu te dissesse que se eu fico com nenhum cara ou dez num mesmo rolê isso não define o quão madura ou profunda eu sou? Você ainda iria querer saber os nomes deles?

Quando você tem quatorze anos e sua amiga da escola te pergunta qual o nome do carinha que você beijou, várias coisas passam pela sua cabeça. É ali, na puberdade, que a gente começa a entender o que é se relacionar, a conhecer nosso corpo, nossas vontades e limites. Mas não é ali que a gente consegue definir, e escrever em pedra, como a gente vai lidar com os nossos relacionamentos ao longo da vida. Nós nos deparamos o modelo tradicional e o resto do mundo espera que a gente o siga à risca. Dançamos conforme a música e, às vezes, a gente começa a questionar tudo um pouco tarde demais.

Quando você tem quatorze anos e se questiona porque beijou um completo desconhecido, é porque provavelmente você não sabia o que estava fazendo e, obviamente, era imatura. E você deixa as pessoas te questionarem também, não consegue impedir que te julguem. Mas quando você já viveu um terço da sua vida, comeu o pão que o diabo amassou tentando seguir a regra dos relacionamentos, aprendeu da forma mais árdua que relações profundas são flores repletas de espinhos, uma pessoa te dizendo que o seu comportamento é superficial e juvenil é um ultraje. 

Ter opinião sobre as coisas é o que nos distingue uns dos outros e isso a coisa mais incrível em ser humano. Contudo, também somos construídos por contextos, vontades, traumas e fazemos o que fazemos por milhares de razões. Nós entendemos o que nos faz felizes, nos diverte, como isso influencia na nossa história e quantas personagens — anônimas ou não — ela vai ter. Talvez seja a hora de quebrarmos essa régua que mede as pessoas por situações isoladas e prestar um pouco mais de atenção em quem elas realmente se mostram ser. Isso, sim, vai além do nome delas.

Crédito da foto: Aleksandar Pasaric

 

 

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