Tudo bem não estar tudo bem

Você pode ler este post ao som de Who you are, Jessie J

“Toda vez que minha mãe liga
Ela pergunta
‘Tudo bem, filha?’
e eu respondo
‘Tudo e você, mãe?’
e ela responde
‘Tudo bem também’

Que grandes mentirosas.”

Este trecho foi retirado do livro “40 pequenos desabafos de quem não nasceu para a quarentena“, da Ruth Manus. Depois de tê-lo lido, eu te pergunto: quantas vezes você também já mentiu durante o isolamento social?

Há um pouco mais de dois meses, nossas rotinas mudaram drasticamente. Aprendemos da forma mais difícil que não estamos no controle de absolutamente nada — quando o que a gente mais fazia era desenhar nosso futuro como bons controladores que somos. Fomos tomados pela impotência, quando há um inimigo invisível nos ameaçando enquanto tentamos derrotá-lo com sabão e álcool gel. Fomos abraçados pela ansiedade de ter que olhar para frente e enxergar apenas o agora. E também pelo medo, quando mais de trezentas mil pessoas já morreram no mundo*.

Obviamente, cada um tem lidado com o cenário atual a sua maneira. A gente vê de tudo: quem consome notícias incessantemente e consegue analisar a situação de maneira fria, quem consome notícias e tem surtos de realidade a cada cinco segundos. Quem prefere não saber do que está acontecendo em prol da sanidade, quem está sem energia para fazer qualquer coisa produtiva, quem tem utilizado do tempo para fazer cursos, ler livros e assistir coisas. Há quem tenta se abster do mundo externo e quem está em negação.

Você pode até tentar se desconectar, mas a informação vai chegar até você. Bastam cinco minutos em qualquer rede social rindo de alguma bobagem que temos milhares de pessoas falando sobre a crise política e sanitária que estamos vivendo no país. Infinitas opções de cursos livres online, páginas e mais páginas no Instagram com exercícios físicos para entrar “em forma”, receitas para todos os gostos, lives dos nossos artistas favoritos, resenhas dos livros que nunca imaginaríamos querer ler algum dia. Estamos sendo bombardeados de distrações para tentar suprir o fato de que conviver com a gente mesmo é mais difícil do que imaginamos. O que era para ser nosso momento de poder desacelerar, olhar para dentro e cuidar da nossa saúde física e mental se tornou uma nova marotona de metas — dessa vez, dentro de casa.

Querendo ou não, todas essas coisas se tornam nossas cúmplices quando alguém nos pergunta se está tudo bem. “Nossa, estou assistindo todo o catálogo da Netflix e correndo na minha esteira nova todos os dias, tem sido incrível!” vem junto com os stories da aula de yoga e de receitas bem sucedidas. Está todo mundo bem, obrigada.

Não quero dizer que todo mundo deveria entrar em um estado depressivo ou de pânico total — e muito menos que essas pessoas não estão aproveitando o lado positivo da quarentena. O que eu fico pensando é se estamos, de fato, dando vazão ao que sentimos quando o que mais a gente tem feito é preencher a mente com coisas que nos tiram da realidade atual. Nos proibimos de sentir o medo, a ansiedade e a impotência completamente esperadas quando o mundo parece que vai acabar a qualquer momento. Não nos permitimos falar sobre o saldo desse momento que nos oferece tempo e espaço para olhar para dentro.

Repito: cada um vai lidar com os fatos da maneira que achar melhor. Contudo, é importante lembrar que tudo bem não ser uma pessoa produtiva, mesmo tendo mais tempo. Tudo bem se a sua energia estiver baixa e você não tiver vontade de fazer nem as coisas que considerava legais; a rotina mudou completamente. Tudo bem você ficar triste, mesmo quando todas as pessoas que você ama estejam seguras; você pode não estar de luto diretamente, mas o mundo inteiro está. E tudo bem estar sensível.

Estamos vivendo algo inesperado. Aprendemos arduamente que não temos controle de nada, então por que insistimos tanto em controlar nossas emoções?

* Dados de 26 de maio de 2020

Crédito da foto: Emma Filer

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