A tal da responsabilidade afetiva

Você pode ler este post ao som de Dancing on my own, Callum Scott

Eu conheci o Gael* no meu aniversário de vinte e um anos, numa balada na Baixo Augusta chamada Astronete que acabou fechando logo depois. Ele era um dos bartenders e me chamou a atenção no primeiro olhar. Alguns drinks depois (feitos por ele mesmo, inclusive), criei coragem e pedi um guardanapo para anotar meu número de telefone, o que fez com que eu me sentisse a mulher mais corajosa daquela noite. No fundo, eu não achei que ele fosse me mandar mensagem no dia seguinte. Mas ele mandou.

Nos falávamos por horas a fio e, no fim de semana seguinte, ele atravessou a cidade para me encontrar em uma despedida de uma amiga que ia estudar fora. Ele conheceu parte dos meus amigos, fez questão de interagir e ser simpático com todos eles. Tivemos uma noite incrível, cheia de beijos e conversas. E expectativas foram criadas.

Gael se despediu de mim com um beijo suave nos lábios, dizendo que mal podia esperar pelo nosso próximo encontro — um jantar em um restaurante mexicano. Tínhamos chegado a essa conclusão quando eu disse que era uma das minhas culinárias favoritas e descobri que tínhamos isso também em comum. Então eu nunca mais o vi.

Aquilo nunca tinha me acontecido, não que eu tivesse percebido ou de forma tão brusca. Lances e romances anteriores tendiam a acabar naturalmente, quando morria o assunto ou qualquer coisa que mantinha tudo vivo. Mas eu nunca tinha cruzado com alguém que simplesmente sumiria. Eu me lembro de ter mandado mensagem para ele no dia seguinte e ter ficado alguns dias sem resposta. Até que escrevi de novo, perguntando se estava tudo bem, e ele me disse que andava muito ocupado – ali foi minha deixa para me retirar.

Não posso dizer que amava Gael, mas tinha curtido a forma como a gente havia se cruzado e as coisas acontecido — sabe o destino? E de uma hora para outra, me vi pesquisando no Google uma razão coerente para ele simplesmente ter ido embora sem dar tchau.

Naquela época (2013), o termo ghosting nem sequer existia – minha terapeuta brinca que fui eu quem o inseriu no vocabulário dos relacionamentos modernos. E era muito isso, uma pessoa real que desaparecia como se tivesse morrido, virado um fantasma. De lá para cá, perdi as contas de quantos Gaéis apareceram na minha vida, o que tem me feito refletir muito sobre ter responsabilidade com o sentimento alheio.

Li outro dia uma frase que ficou marcada: “às vezes o que não significa nada para você pode significar muito para o outro”. Sei que ninguém nasce pleno e sensato e só faz o bem. Eu já devo ter sido esse tipo de filha da puta e reconheço (e abro esse parêntese para pedir desculpas se um dia fui com quem estiver lendo). Um encontro para o Gael pode ter sido só um encontro – ou ele pode ter mudado de ideia no meio do caminho, o que não julgo. Para mim, foi o surgimento de um sentimento de que algo bom poderia acontecer ali.

Precisamos levar em consideração o quão essencial é deixar o outro saber das nossas intenções – e com clareza. O tempo que uma pessoa espera para entender seus sentimentos e a forma com que ela age podem ser o espaço-tempo perfeito para a outra se envolver. Se você transmite uma mensagem diferente do que sente, o outro pode simplesmente acreditar em você e sofrer quando descobrir que não era bem por aí. Quando você não consegue terminar uma relação, por menor que ela seja, e simplesmente ignora a existência de quem esteve ali por você, isso pode causar danos e traumas, às vezes irreparáveis.

Ninguém é obrigado a gostar de ninguém ou querer a mesma coisa que a outra pessoa quer. A forma como o outro lida com suas rejeições não cabe a gente decifrar, mas tentar ter o mínimo de dignidade e sair pela porta da frente é o que pode poupar alguém (que gosta de você, diga-se de passagem) de um sofrimento ainda maior. A comunicação nunca foi tão importante, ainda mais em uma época repleta de recursos para tal.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem.

Crédito da foto: StockSnap–894430

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