A canoa

Você pode ler este post ao som de Beautiful girl, Sara Bareilles

Era uma quarta-feira dessas de quase verão bem esquisitas — que faz um calor abafado quase que insuportável e termina com uma chuva torrencial que ninguém sabe de onde vem. Meu escritório era uma mesa desarrumada dentro do meu quarto com pouca ventilação, onde meus ursinhos de pelúcia antigos e minha cachorra me assistiam trabalhar. Perdi a conta de quantas abas e arquivos de word me encaravam e a inspiração que eu deveria ter parecia ter se dissipado no meio de todas elas.

Eu havia cruzado com Fernando* no aplicativo fazia alguns dias, mas nosso encontro, ao que parecia, estava longe de acontecer. Nossas rotinas não queriam que aquele match acontecesse na vida real e o tempo passava e me deixava ainda mais curiosa. Eu não queria saber se ele era atraente, mas queria ouvir sua voz. Não queria saber se o papo era legal (o que parecia ser pelas mensagens que a gente trocava), mas sentir o peso da sua energia. Queria conhecer a pessoa que ele era e não continuar criando uma personagem na cabeça.

A chuva ainda caía lá fora e eu tinha um único desejo que era sentar em uma cadeira que não fosse aquela barulhenta do meu quarto e tomar uma cerveja. São poucas vezes na vida que eu não me importo com temporais de verão, ainda mais quando a ideia de encontrar alguém novo invadia tudo que passava ou deixava de passar pela minha cabeça. Parei, pensei bem: quem é que vai querer sair pra me ver com esse tempo?

No meio do meu gole de café, no dia seguinte, Adriana* me disse uma coisa que eu acredito jamais esquecer: “se eu fosse esse cara, eu te buscaria de canoa na sua casa para ir aonde quer que fosse“. Com esse comentário, coisas muito peculiares começaram a passar pela minha cabeça:

  1. não sei se eu sou tão legal assim não sei se iriam me achar tão legal assim
  2. será que eu valho um passeio de canoa será que ele teria uma canoa
  3. quem sairia nessa chuva comigo será que ele sairia nessa chuva comigo

Eu nem havia chegado a perguntar para ele se ele queria ou não sair comigo, no meio da semana e da possível enchente. Talvez ele até aceitasse, inventasse uma desculpa ou sei lá o quê, isso não importava. Fiquei pensando na razão de eu não ter nem chamado. Seria baixa autoestima? Seria. Não tem muito o que dizer.

Eu queria muito enxergar, pelo menos, dez porcento do que as minhas amigas enxergam em mim. Acreditar que o que elas dizem ao meu respeito é genuíno e não só porque elas me amam. Acreditar que essa admiração é vista e desejada por outras pessoas fora do meu círculo de amizades.

Mas, no fundo, a gente sabe que não é bem assim que as coisas funcionam. Num mundo imagético, tecnológico, com aparatos oferecendo diversas opções a todo vapor, é perigosamente fácil contestar nosso valor. É uma dança sem coreografia bem definida de tentar superar aquele reflexo no espelho e, ao mesmo tempo, enxergar nossas singularidades e sermos gentis com a gente mesmo.

O que a gente pensa sobre quem a gente é pode ser a nossa melhor arma — seja contra os encontros mais furados da vida ou de pessoas que não valem a pena nosso tempo, seja optar por aceitar ou não menos do que a gente merece. Se quem a gente gosta vai vir de carruagem, bicicleta, canoa ou simplesmente não vir, isso foge completamente do nosso controle. Nosso amor próprio não.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das personagens.

Crédito da foto: Oleg M Kulishov

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