Marcas

Você pode ler este post ao som de 6th Avenue Heartache, The Wallflowers

Ficar em um mesmo lugar por muito tempo faz você criar novas perspectivas para o que sempre esteve ali. O bar que você frequenta há anos e já sabe até o nome dos garçons, os relacionamentos longos que cultiva, a casa onde sempre morou, tudo muda. E nem sempre mudanças são confortáveis, o que traz aquela inquietação em fazer algo para nos sentirmos em um território conhecido e seguro de novo.

Há uns anos atrás, colei uns adesivos e quadros perto da minha cama que, ultimamente, começaram a me incomodar. Eles não sairiam dali naturalmente, o que era óbvio, então decidi me livrar deles e criar uma nova identidade para o ambiente. O resultado foi uma troca muito ingrata, eu passei a ter marcas de fita adesiva por todos os lados. Para uma pessoa normal, aquilo seria muito fácil de resolver; erá só pintar a parede e começar do zero. Eu, no entanto, optei por trocar o guarda-roupa de lugar e cobrir a parede defeituosa com ele.

O móvel era pesado, então precisei tirar tudo o que tinha de dentro e espalhar por onde quer que houvesse espaço — gerando ainda mais desordem e arrependimento. Convoquei meu irmão para arrastá-lo e me acompanhar na crise de riso e de nervoso que se seguia nos próximos passos daquela saga. É engraçado como os atalhos que a gente cria para resolver problemas soam sempre inéditos. Raramente temos lapsos de consciência que nos dizem que o caminho pode ser mais fácil, mas o tiro sai pela culatra. Atrás do guarda-roupa tinha outras marcas antigas que diziam em alto e bom som você já fez isso antes. As coisas estavam fora do lugar na minha casa, mas começaram a se encaixar na minha cabeça.

Eu tinha passado a vida inteira arrastando guarda-roupas metafóricos e lidando com os restos de perspectivas antigas. A solução (o tal do balde de tinta) me assistindo de camarote enquanto eu fugia, cobria, arrancava, encarava o que nem era a tática mais simples. Eu escolhi a parede que estava em melhor estado e rearranjei meu quarto de uma forma que mostrasse que aquilo tudo tinha valido a pena. Provavelmente encontraria algo que cobrisse o que restou daquela bagunça que acabara de se internalizar.

A faxina havia surgido do tédio, mas sufocar questões mal resolvidas parecia ser pura teimosia. Quantas pessoas não haviam sido a cobertura de paredes impenetráveis pela falta de reciprocidade? Quantas validações externas tapearam a crença que eu precisava ter em mim mesma? Quantas vezes eu trocara perguntas diretas por mensagens com duplos sentidos para adiar alguma verdade, muitas vezes estampada para todo mundo ver?

E nenhum desses processos era leve ou fácil de se arrastar por aí. Quase todos bagunçaram ainda mais a casa. Alongaram enredos que poderiam ter me machucado menos se eu tivesse tomado o tempo certo das coisas, tido paciência para a tinta secar, para as feridas sararem.

Tudo muda, isso é certo. Se a mudança vem de dentro para fora pelo nosso olhar, ou se ela faz a gente se adaptar a novos cenários, o importante é nos conhecermos e nos aceitarmos dentro deles. Entender que saídas instantâneas podem bater na nossa porta, cedo ou tarde, nos provando que não somos tão espertos assim.

Crédito da foto: Dương Nhân

 

 

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