Ah, as resoluções de ano novo!

Escrevo este texto enquanto encaro uma pia repleta de louças sujas exclusivamente minha. O prato, com a comida fresquinha e saudável, descansa sobre a mesa enquanto eu tento decidir o que fazer primeiro. Foram três horas cortando vegetais, chorando com a cebola e correndo contra o tempo para nada queimar, já pensando que a foto no Instagram tinha que ficar bonitinha para mostrar o quão prendada eu comecei dois mil e vinte.

Cozinhar é uma das promessas que eu fiz na virada desse ano, o que já era um plano adiado por muito tempo e me assombrava toda vez que a fumacinha do miojo recém pronto me entorpecia. Não era possível que eu, no auge dos meus vinte e sete anos, não saberia a medida de água para o arroz cozinhar sem virar uma pasta. Além disso, o fato de eu ser vegetariana me cobraria certa criatividade com as receitas e os temperos, tornando o desafio maior.

Ah, se todas as promessas de ano novo fossem fáceis assim, não é mesmo? Para cada medida de arroz, temos duas de água e é só caprichar no tempero e cuidar do sal que tudo se encaminha. A questão, no entanto, não é ter metas, mas parar de querer dobrá-las antes da hora – se é que me entendem – e administrá-las de uma forma que não virem mais uma lista de meras frustrações. Nós precisamos cuidar para que os objetivos que tanto nos animamos em traçar não voltem sempre para o mesmo lugar: o papel.

O mais curioso no comportamento humano acerca das new year’s resolutions é perceber que muito se quer e pouco se planeja. Por exemplo: por muitos anos eu desejei ler e escrever mais. É só abrir qualquer fim de agenda minha que você vai encontrar anotações do tipo “ler x livros por mês” ou “postar y textos por semana no blog abandonado”. Contudo, eu nunca me perguntei sobre qual momento do meu dia eu faria aquelas coisas e, consequentemente, fui sendo arrastada pela realidade me dizendo que se eu não delimitar um caminho realista não tem linha de chegada me esperando.

Nossas vidas são construídas de (re)começos: são primeiros de janeiro, primeiras segundas do ano e a tão esperada própria segunda-feira, ali, a cada sete dias sem falhar, de bracinhos cruzados vendo você por seu tênis de academia mais uma vez na mochila. São as alfarrobas que você desistiu de comer no lugar do chocolate e que sempre retornam à cestinha da loja de produtos naturais. O importante é não desistir, eles disseram.

Não há problema nenhum em cair e levantar, não me levem a mal, mas deve haver algum jeito de amortecer essa queda e encontrar em nós mesmos a fonte dos tropeços. Seria o cansaço? A falta de estabelecer quais são as nossas prioridades? Entender qual a importância de tudo o que a gente se propõe a fazer? E pergunto ainda: para onde vai a culpa se eu quiser desistir de algum item dessa lista tão tradicional que insiste em desgraçar nossas cabeças todo santo começo e fim de ano?

Se vamos deslanchar profissionalmente, começar aquela pós-graduação tão esperada ou arrumar nossas camas todos os dias, eu não sei. O que eu espero, de verdade, é que toda essa energia que aparece magicamente nessa época seja combustível para nos levar até o fim da estrada – e que haja a sensação de dever cumprido por lá.

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