Os desaforos que eu levei para casa

Você pode ler este post ao som de Bad Blood, Taylor Swift

Quem nunca ouviu um “não dê este gostinho para Fulano de Tal” e teve que engolir o choro para que um agressor não pudesse ver o sofrimento que causou que atire a primeira pedra. “O que vem de baixo não me atinge” também é uma versão clássica do orgulho de quem é inabalável. Você estava lá, estrupiado, depois de sofrer bullying na escola ou de engolir o sapo mais amargo no trabalho, mas esboça aquele sorriso amarelo de “tá tudo bem, gente“. Você é forte, eles disseram.

Cresci trazendo desaforo para casa para não arrumar briga na escola. Tendo que concordar com absolutamente tudo que os meus pais diziam, fazendo sentido para a minha realidade ou não. Quando comecei a dirigir, a instrução era: se bater o carro, já desce falando que vai pagar. Até que um dia bateram em mim e eu disse que ia pagar, cheguei em casa, não entendi o que tinha acontecido ou porque tinha feito tal promessa. Mulher, ainda, não podia desmoronar, não podia dar de louca e, muito menos, ter razão.

Uma outra vez, eu sofri um abuso e a pessoa me mandou mensagem no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Eu, completamente em choque — e, mais uma vez, tentando entender o que tinha acontecido — ativei a ferramenta que a gente mais gosta de usar no mundo da tecnologia: bloquear. Ergui a cabeça, sequei a lágrima e segui “forte”, como as pessoas queriam me ver.

Fui me tornando uma muralha, que pedia desculpas o tempo todo, mesmo quando eu era quem deveria desculpar. Que não dava o prazer para um filho da p*ta ver que me fez sofrer e que fazia piada da própria desgraça. O muro ficou grande demais e me cercou com toda a bagagem acumulada de anos sem dar o gosto ou o prazer ou o que quer que fosse para todas as pessoas que me afetaram negativamente ao longo da vida. O muro me enclausurou e todo o feedback que eu tinha recebido para ser alguém melhor, mas que eu não podia dar para pessoas relativamente ruins, caiu por terra.

Esquece essa história, Ciclano não vale a pena“. Foi então que eu entendi que não só o Ciclano não valia apena, quanto amargurar um sentimento ruim dentro de mim também não. Não vou esquecer, não é fácil assim. E sabe quem também não vai esquecer? O bêbado que bateu no meu carro, o embuste que me tratou como objeto, a “amiga” que achava que eu era obrigada a me afundar junto com ela, o psicopata que tentou manipular minha mente a seu favor e o professor da quinta série que me fez chorar na frente da sala toda porque ele simplesmente podia.

Há uma ponte que divide muito bem a exposição de uma ferida e a tentativa de tapar um buraco de bala com um band-aid. Chega uma hora que a voz se esvai, a lágrima rola e não é mais no meio da noite, é para uma plateia inteira. Isso não nos torna fracos, mas humanos. Ajuda a escoar o ódio que temos o direito de sentir e nos previne de que ele vire um rancor que pode nos destruir.

Ainda tem muito tijolo para cair de tudo que me cerca, mas posso dizer que me sinto mais leve, que consigo respirar. O que cada pessoa faz com a consequência de seus atos não me diz respeito, mas é importante que quem faz mal saiba que nem tudo é sobre ele. Que não temos que fingir que está tudo bem para provar algo ou fazer com que a pessoa que nos machucou vire o jogo para se sentir melhor. Perdoar é importante, mas se permitir sentir, lidar com a dor e aprender as lições que nos são dadas ao longo do caminho são atitudes tão importantes quanto. Não adianta aliviar a consciência do outro enquanto a sua própria te mata. Lentamente.

Credito da foto: Revista Vogue

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