O jovem moderno que queria estar em forma

Você pode ler este post ao som de qualquer música que faça você querer se mexer.

Nunca gostei de esportes. Não acredito que tenha sido por falta de incentivo familiar, visto que minha mãe é a pessoa mais fisicamente ativa que eu conheço e meu irmão era sempre visto com uma bola. Acontece que a vida inteira fui desastrada e me senti desengonçada com meu próprio corpo. Quer ver um show de horrores peça para eu dançar — o que provavelmente vou fazer mesmo assim para entreter pessoas.

Eu me lembro da época da escola, o professor de educação física dividia os esportes por bimestre e a vez do voleibol era a única que me fazia parar de cabular aula para comer as amoras dos pés que ficavam em volta da quadra. Algo na lógica do jogo me chamava a atenção: o posicionamento dos jogadores que sempre mudava, a bola no alto, os movimentos. Eu, que nem sequer acompanho os jogos do Brasil na Copa do Mundo, me pegava assistindo às partidas de vôlei nas olimpíadas, encantada.

Como todo jovem da modernidade que quer estar minimamente em forma, passei o começo da minha vida adulta pagando academias e falhando miseravelmente na hora mais importante, que era a de ir até lá e treinar.  Constantemente com a sensação de estar fazendo algo errado que pudesse me levar a uma paralisia das pernas (ou pior), eu ficava observando as pessoas e me perguntando por que raios eu estava ali. Sabia, no fundo, que nunca teria um corpo de paniquete ou de angel da Victoria’s Secrets.

Decidi que tinha que ser mais forte que o Chandler de Friends (seriously, man, you gotta quit the gym) e quebrar meu contrato com a SmartFit de uma vez por todas. A moça da recepção fez todo o processo em menos de cinco minutos com o olhar de quem sabia que eu voltaria em alguns meses, vestindo alguns números a mais. Contudo, meu plano para estar em forma acabara de começar. Decidi praticar o único esporte que gostei.

Óbvio que levei mais uns dois meses de ensaio para começar as aulas, que fiquei doente e desanimada, direcionada à aceitação da minha condição sedentária. Até que em uma bela manhã, ao pegar minha cachorra de dezesseis quilos no colo e passar uma semana sem conseguir me virar na cama à noite porque minha lombar me matava, decidi que era a hora de literalmente me mexer.

Pisquei e estava em quadra, passando a bola para uma outra mulher iniciante. “Vamos imitando a galera“, ela dizia conforme os passes mudavam. Na segunda manchete, achei que meus braços fossem cair e fiquei aliviada de estar praticando com alguém que sentia o mesmo. Com as redes já posicionadas, o professor do clube esportivo que ficava em Pinheiros designou quem ia para cada time e eu comecei a lembrar de como as pessoas podiam ser competitivas nos esportes.

Muito de um jogo de voleibol se parece com a vida adulta: tem aquela pessoa que vai, genuinamente, te ajudar. Tem aquela que pensa no time como um todo e ou você vai ser ajudada ou levada pelo próprio jogo, sem muitas escolhas. Qualquer desvio de atenção pode resultar em uma bolada na cara ou alguém caindo por cima de você e a proatividade se torna um meio de sobrevivência obrigatório. Pelo time, ou seja lá o que for, tem sempre aquele dedicado que vai se jogar no chão e se estrupiar inteiro, enquanto o outro ainda está perdido sem saber muito o que fazer com a bola que vem vindo em sua direção. É uma selva, mas é a nossa vida.

Voltei para casa refletindo muito sobre como aquela aula representava milhares de outras coisas, uma delas era não desistir quando algo fica difícil. É cair e levantar. Secar o sangue e a lágrima e continuar correndo. Conviver com a dor e lembrar do porque ela está ali. Comer um pedaço imenso de bolo e conseguir seguir com a dieta mesmo assim, afinal, uma falha não é o todo. Não levar tudo para o pessoal, nem todo mundo sabe o que fala. Entender o calor do momento e saber conviver consigo mesmo quando tudo ficar frio. Desapegar do conformismo e passar a bola pra frente quando necessário.

Não sei quanto tempo minha animação vai durar e confesso que pensei em nunca mais voltar àquela quadra quando o primeiro cara foi grosso comigo. Surpreendentemente, enxerguei aquela experiência com lentes que nem imaginava que existissem. Se ficarei em forma, ou não, aí já é uma história diferente, mas sei que há uma grande chance de me fortalecer como pessoa — e encontrar essa oportunidade nos momentos mais improváveis não tem preço.

Crédito da imagem: Tribuna do Norte

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s