A manhã seguinte

Você pode ler este post ao som de Riptide, Vance Joy

Podia-se ouvir o cantarolar de um bar inteiro animado com ACDC. O vocalista da banda cover de rock clássico destoava de todo o resto: uma camisa branca fazia par com um cachecol que parecia ser demais para um local fechado e nada frio. E tinha o sapatênis, aquele que o Alex* fez questão de associar com alguma piada interna que tinha com seus amigos. O riso dele se misturava bem com os acordes de guitarra.

Já havia perdido as contas de quantas cervejas tinha tomado ou de quantas conversas profundas tínhamos tido, enquanto ele insistia em questionar minha vontade de ter um banjo. Fazia tempo que não encontrava alguém com quem dividisse as mesmas paixões, mesmo nossas reflexões entrando em algum impasse. E essa era uma das maiores razões de eu estar no meio daquele barulho, depois de uma semana barulhenta o suficiente.

Duas garrafas vazias se encontraram no balcão do bar, o canto aparentemente mais tranquilo do segundo andar. Nossos lábios fizeram um caminho parecido e o redor já não girava mais. Bon Jovi foi testemunha de que a sintonia ia muito mais além de duas pessoas envolvidas pela música. Livin’ on a prayer tinha acabado de ganhar um novo contexto. Talvez aquele homem nem tão desconhecido também.

Então eu pisquei e tudo tinha mudado. O papo, o tom de voz, os pensamentos e o cenário. A música que tocava ao fundo havia sido cuidadosamente escolhida quando criei a playlist, alguns dias antes. O volume era adequado à hora da madrugada e a sensação de não saber o que fazer havia se dissipado na circunstância. Meu olhar dançava pelo cômodo, curioso pelos livros, discos e instrumentos. Dançava pelo dele, contornando a atmosfera leve.

Acordei e a luz que atravessava a cortina denunciava o dia. Ouvia uma respiração profunda que se confundia com a minha. A imagem era crua, fruto de uma fantasia prematura que quebrava um ciclo maior que qualquer incerteza. Eu não sabia onde estava, mesmo sabendo. Havia me deixado levar por tanto: a expectativa, o álcool, a conversa desprendida, as mãos dele dançando pelo meu corpo.

Por mais orgânico que o encontro tenha sido, a claridade trazia reflexões que não previra. Não necessariamente naquela manhã, mas cada vez que pensava nele. É engraçado como nos conectamos sem saber direito quem está próximo. Criamos um sentimento difícil de decifrar e que pode mudar a cada segundo, escorrer entre os dedos, perfurando versos. Algumas pessoas são canções que não podem ser lidas se não ouvidas previamente, por mais precisas que sejam suas composições. Alex era uma delas.

Comecei a trocar as palavras, enquanto ele media as suas. Parece que já sei tudo sobre quem ele é, mas sei tão pouco. Talvez ele saiba o suficiente do que deixei transparecer nas histórias que nem me lembro de ter contado. Talvez aquela conversa em que eu já não falava nada que fizesse sentido até adormecer seja o que ficou na manhã seguinte.

Cada vez que a gente se despede parece a primeira — e eu nunca sei se será a última. Mesmo compreendendo as claves, brincando entre melodias, eu me sinto fora do tom, perdida no tempo. Eu, que sempre viajei pela profundidade, tenho encontrado na superfície as notas mais difíceis de serem alcançadas.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem.

Crédito da imagem: flickr/Jackie Matthews

 

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