A teoria do prato giratório

Você pode ler este post ao som de Don’t you want me, The Human League

Éramos em três mulheres, de idades diferentes dentro de um carro no trânsito da Lapa, em São Paulo. De repente, uma crise de ansiedade se transforma em uma de riso, ecoando dentre teorias, conselhos e histórias parecidas. Não diria toda mulher, mas acredito que toda pessoa já se sentiu insegura em se relacionar na era tecnológica — ou pelo menos tentar. Será que mando mensagem? Quem foi que chamou o outro para sair da última vez? O assunto morreu, o que eu falo agora? são algumas perguntas que a gente se pega fazendo em um fim de tarde, enquanto tentamos sobreviver mais um dia caótico do mundo moderno.

Com tantos meios comunicação, nossa sociedade se calou. Descobrimos, da forma mais amarga, a diferença entre conversar com alguém ou apenas responder uma mensagem visualizada. E nós agradecemos a resposta, porque o silêncio também é uma forma de falar e ele causa ainda mais desconforto em quem tem interesse e não tem medo de demonstrá-lo. Não é à toa que estamos, todos, narrando nossos próprios enredos e tirando qualquer conclusão sem ter a chance de entender e de ser entendido.

Patricia* aproveitou o farol fechado da Avenida dos Bandeirantes e desceu. A conversa continuou: fala de você, passei a bola para a próxima odisseia preencher os últimos quinze minutos até o destino final. Tabatha* encara o para-brisa: ele fala que quer sair, mas nunca está disponível. É como se estivesse sempre ali, sem estar. Eu continuo, em pensamento: esperando o momento mais conveniente para ele, talvez. Ela, então, fala algo sobre o pratinho girando no meio dessa espera. O famoso não f*de e nem sai de cima. As pessoas não cortam laços e, ao mesmo tempo, querem manter vivas as expectativas do outro para caso ela ainda tenha a passagem livre em algum espaço-tempo mais favorável. O prato continua girando, enquanto nada vai acontecendo.

Na realidade, a teoria do prato giratório não está diretamente relacionada às novas tecnologias — ela simplesmente foi enaltecida com elas e facilitou todo o processo. O ser humano constrói o prato, cria todo o movimento e se cansa: mas é egocêntrico o suficiente para largar o osso. A maioria das pessoas não tem a capacidade de dizer que a festa acabou para que paremos de dançar. Apagam-se as luzes e fica-se a dica. São entrelinhas para serem lidas na escuridão, enquanto estamos agarrados no prato, nos segurando para não cair. Girando e girando – e esperando também.

Se a cada dia aprendemos novas formas de conhecer pessoas e criar novos vínculos, precisamos descobrir, mais do que nunca, como identificar nossas deixas. A música rolando em um volume menos animado pode ser nossa chance de nos aquietarmos. Pegar nosso prato com mãos firmes e encontrar um lugar mais seguro para a movimentação da nossa própria energia. Ouvimos tanto que tempo é valioso, mas nos esquecemos que a energia é o que nos move. E dançar sem uma plateia digna da coreografia parece ser o maior erro que cometemos.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das personagens.

Crédito da foto: Elijah O’Donnell

 

 

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