Bonitinho, vegano e ordinário

Você pode ler este post ao som Wasted time, Skid Row

“Desculpa, mas eu não trabalho para o pornhub“: tá aí uma frase que eu nunca achei que diria na vida.

Uma coisa muito engraçada sobre apps de relacionamento é perceber que, mesmo dentro da nossa casa, enrolada num cobertor e segurando uma xícara de café, estamos submetidos a conhecer as pessoas muito peculiares.

Se misturarmos álcool e tédio, é possível que escolheremos as nossas melhores fotos, criaremos a descrição mais criativa que qualquer propaganda de marketing e nos juntaremos às milhares de pessoas em busca de um corpo quente nesse frio nos tinders da vida. Julgar essas pessoas não é uma opção, pois todo mundo vai ter sua vez um dia.

Travis* era um cara bonito meio loiro, meio ruivo que tinha uma banda e muitas fotos legais. Enquanto ouvia rock pesadão, cozinhava seu próprio macarrão de abobrinha. Sim, um rockeiro, músico, bonito e vegano era tudo o que eu precisava naquele momento.

Na descrição, ele dizia que procurava companhia para ver filmes de terror que fossem protegê-lo – a desculpa mais safada e batida que alguém poderia utilizar como artimanha de sedução. Ele tinha me ganhado ali, apesar do clichê. Demos match e, mal sabia eu, que ele seria com o capeta.

Meia hora conversando e eu recebo uma localização por mensagem: “estou indo tomar banho e deixei a porta aberta”. Gente. Isso era para mim? O que ele quis dizer? Que era para eu ir para a casa dele sabendo que a taxa de feminicídio aumentou 76% no primeiro trimestre deste ano, no Brasil? Estava eu muito louca? Essas perguntas nunca foram respondidas.

Eu fui desconversando, já sabendo que o que ele queria era sexo casual (e tudo bem). A maioria das pessoas que já conheci nesses aplicativos quer isso mesmo e são muito claras com seus objetivos. O que começou a ser curioso foram os esquivos de todos os convites para bares, cafés e qualquer outro local público da cidade.

“Me manda uma foto sua?” Foto de quê? Uma selfie? Uma foto com a Gertrudes? Uma foto minha trabalhando? Lendo um livro? Ah, tá! Acho que ele quer um nude. E me conhecer? Será que ele queria?

Somando minha paciência e a esperança de tornar aquela experiência em algo produtivo como um escudo e esse texto que vos escrevo, deixei a situação ir ainda mais longe. Foram muitos pedidos de fotos e de visitas no meio da noite, sem qualquer pergunta sobre quem eu era. Talvez eu fosse uma psicopata também e ele nem sequer deve ter parado para pensar nisso.

Mesmo com todas as expectativas alinhadas, ele não parecia entender meu ponto, mas eu entendi o dele perfeitamente: temos, agora, uma outra classe de interesses em aplicativos de relacionamento. Não é sair com a pessoa e transar no primeiro encontro, nem mesmo ir a mais de um encontro e transar depois. É não sair e ter um “serviço” que vai além dos sites pornôs, como a prostituição gratuita a domicílio.

Com o Travis, eu descobri que não somos mais pessoas de carne e osso ou mulheres dignas de uma conversa (e nem me venha com esse papo de que a gente busca por relacionamento sério, pois não é o caso), somos gado. Estamos disponíveis e parecemos não ter relações bem estabelecidos na vida real para não precisarmos sair no meio da noite e satisfazer o desejo sexual de um desconhecido. Aprendi que, mesmo que a gente quisesse sair no meio da noite e entrar na casa de um estranho sem o menor compromisso, estaríamos correndo o risco de perder a própria vida. Aprendi que não valemos um copo americano de cerveja. Travis fez a conta de quanto ele gastaria em um date sem ter a certeza de que se daria bem no final.

O medo, o espanto e a reflexão me fizeram crer que dignidade é uma questão que vai muito além de se resguardar física e emocionalmente, mas entender que ainda precisamos do mínimo de profundidade até para relacionamentos superficiais. E, infelizmente, as pessoas se assustam com isso. Dizer que tem interesse, compartilhar um litrão de cerveja barata e se propor a conhecer um pouco do outro não quer dizer que não queremos o mesmo prazer descompromissado. No fim, a gente só quer mesmo se certificar de que a energia no entorno não nos colocará em alguma posição desconfortável e traumática, afinal, da mistura do álcool com o tédio sai a carência do corpo quente no frio.

E ele poderia ter sido o seu, Travis.

*Nome fictício para preservar a personagem (mesmo que ela não mereça).

Crédito da imagem: flickr/Marian Alonso

2 comentários em “Bonitinho, vegano e ordinário

  1. Eu com a minha grande inocência/carência já participei desses apps de relacionamentos. Peguei um trauma tão grande, que nunca mais quis saber de conversar com desconhecidos. É até divertido, mas é difícil encontrar alguém que queira só conversar sobre coisas aleatórias.

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